A TAP já não é o que era

 

A TAP já não é o que era.

Quantas vezes já ouvi isto nos últimos tempos. Por amigos. Por conhecidos. Nos jornais. Na televisão. Em quase todos os fóruns de opinião pública existente, especialmente nas redes sociais.

E é dito de uma forma claramente depreciativa. Dito de uma forma a rebaixar aquela que (ainda) é a companhia aérea de bandeira nacional.

É algo que, de facto, transcende gerações de portugueses. O espírito de no meu tempo é que era.

E lá no fundo é verdade. E ainda bem. 

A TAP já não é o que era. Já não é o que era porque a aviação comercial já não é o que era. As necessidades e exigências do transporte aéreo comercial moderno assim o exigem. Adaptou-se. Onde antes existiam rotações de três ou quatro horas hoje fazem-se em tão pouco tempo como 45 minutos. Onde antes se tinham rotas com 5 ou 6 passageiros hoje existem rotas com aviões quase sempre cheios. Onde antes existia uma frota de 20 ou 30 aviões, hoje existem mais de 60. O dobro. Onde antes não existia concorrência, hoje, e com o mercado liberalizado, existem dez, vinte, ou mais concorrentes.

E tudo isto implica mais exigência. O que levará a mais falhas de serviço, sem dúvida. Falhas essas que têm de ser resolvidas. Com empenho e pragmatismo. Mas elas são consequência da evolução de toda a envolvente aeronáutica.

Foto: TAP Portugal (c)

Foto: TAP Portugal (c)

Ao ler o que se escreve por aí é difícil não ficar com a ideia que gerir expectativas, para quem voa na TAP, é uma tarefa impossível. Ora se quer preços que rivalizem com as companhias low cost, ora se quer um serviço de topo. E isso é, no mercado de hoje, impossível. Não é possível vender bilhetes a valores tão baixos como 36€ e servir uma refeição quente num voo de cinquenta minutos. E por mais que isso custe a alguns, a TAP não existe para cumprir as mordomias de uma classe, de um grupo ou de um indivíduo. Existe para, ao mesmo tempo que fornece um serviço em total segurança, gerar lucro. E isso obriga à tomada de decisões, por vezes difíceis, de convergência de serviço e adaptação ao mercado e concorrência.

A TAP ainda hoje representa Portugal. O nome está lá. Reflectido no indicativo de todos os voos: “Air Portugal”. E, independentemente de tudo, a TAP é ainda hoje uma referência. Referência de optimização (é das mais eficientes companhias da Europa, poucos fazem tanto com tão pouco). Referência de segurança (considerada a 7ª companhia aérea mais segura do mundo em 2014 pelo JACDEC, 3ª mais segura da Europa e constantemente no TOP 15). Referência como empresa (é o maior exportador nacional). Referência como símbolo nacional (ela é um pedaço de Portugal pelo mundo).

E, para o bem e para o mal, a verdade é que ela é a nossa companhia. Não entendo a vontade tão forte de alguns compatriotas meus de a verem falhar. 

A TAP representa um país: o nosso.  Com tradição, com profissionalismo e com alma (o que hoje em dia é difícil nesta indústria).

E isso deveria encher-nos de orgulho.

O mesmo que se tem ao ver o nome de Portugal inscrito na fuselagem de cada avião.

E tudo Tancos levou

“De bestial a besta num instante” já diz o ditado. 

Em pouco menos de duas semanas, como que por providência divina, tivemos dois acontecimentos que nos relembraram da nossa condição de falíveis. Após a vitória no Europeu de futebol e de uma vitória no Euro Festival da canção, que elevaram os ânimos da Nação, veio o incêndio de Pedrogão e o assalto ao arsenal de Tancos. Afinal, não só quando as coisas correm mal é “que a vida continua”. Quando correm bem também. E às vezes continua para pior. 

Dizia o EL PAÍS, um dos maiores periódicos espanhóis, em tons de gozo, que Portugal é de facto um país tão seguro, que qualquer pessoa pode ir a Tancos roubar uma arma.

E é (muito) difícil, neste caso, de não nos sentirmos merecedores desse insulto.

Como tem sido apanágio da vida pública nacional todos tentam desresponsabilizar-se. A oposição ataca o governo. O governo atribui culpas ao passado da oposição. O Estado Maior do Exército faz rolar cabeças na hierarquia militar. As forças armadas acusam o poder político. O “povo”, sempre com sede de sangue e quase sempre sem nenhum conhecimento de causa, culpa tudo e todos. Alguns até se remetem ao silêncio.

Foto: Global Imagens (c)

Foto: Global Imagens (c)

Talvez ninguém tenha razão. Ou talvez tenham todos. Sim. Todos. 

As responsabilidades directas terão de ser apuradas, não tenho dúvidas. Quem efectou o assalto, e com que objectivo? Existiu colaboração interna? Houve negligência na vigilância? 

Mas as responsabilidades indirectas, dessas, ninguém se safa. E eu resumiria os três grandes responsáveis por essas de forma clara:

  1. O poder político. Por mais que qualquer ministro da defesa, primeiro ministro, ou qualquer outro membro do executivo dos últimos quarenta anos negue, tem existido um desinvestimento claro, contínuo e significativo nas forças armadas. O orçamento da defesa está longe dos 2% do produto interno bruto (PIB) exigidos pela NATO. A quantidade de efectivos reduziu tanto que nem uma divisão conseguiríamos equipar no Exército Português. O número de exercícios, de treino e de aprontamento nunca foi tão baixo. E parte do equipamento está obsoleto. Não dá votos, portanto corta-se. É, no mínimo, um insulto para quem jurou dar a vida em prol da manutenção da soberania nacional. É que quem lá serve – nas forças armadas – são pessoas como nós. Filhos, pais, mães e amigos. Mas quando for preciso, esperemos que não, são os primeiros a dar o peito às balas. Literalmente. Portanto, sim, o poder político, seja qual for o espectro político, é responsável pelo que aconteceu.
  2. O topo da hierarquia militar. Desde há muito tempo que parte da hierarquia militar de topo é influenciada politicamente. Não me interpretem mal: numa Democracia o poder militar, as forças armadas, deverão sempre – e reitero, sempre – depender, sujeitar-se e ser um braço do poder político. Mas isso não significa que não mantenham a sua independência em termos de gestão interna, funcionamento orgânico e, acima de tudo, de respeito para com os seus homens e dever com a Nação. Não é segredo nenhum que a escolha de alguns generais é feita por nomeação política, favorecendo alguém de determinada cor partidária em prol de, talvez, alguém mais competente ou alguém que questione quando é necessário. À frente das forças armadas pretende-se ter alguém que pense independentemente de quem está por cima, capaz de atirar com os pés à parede quando a situação assim o dita. Já dizia John Boyd: “Se o teu chefe te pede lealdade, dá-lhe integridade. Se te pede integridade, dá-lhe lealdade”. Tão verdade. Nas forças armadas jura-se defender a Pátria. Não um governo, um sistema político ou um partido. E nos últimos anos a hierarquia de topo militar foi complacente, por vezes até cúmplice, do poder político existente da altura. E isso faz dela responsável.
  3. O nacional-porreirismo. E aqui, meus caros amigos, aqui estamos todos nós. É um traço tão português. Tão nacional. Pensamos sempre que só acontece aos outros. A nossa descontração do dia a dia (tão boa, admito!) faz-nos acreditar que ataques terroristas? Só lá fora. Conflitos armados? Para lá do paralelo 20º. Vivemos tão pacificamente iludidos no nosso cantinho, que às vezes nos esquecemos que essa “paz” pode ser apenas passageira. Damos isto que temos como garantido. E isso leva-nos, a todos, a ser displicentes. Descuidados. Aumentamos o risco porque assumimos que cá é impossível isso acontecer. Criticamos as forças armadas, que deveriam ser estimadas, porque ignorantemente não compreendemos a sua necessidade e a sua importância fulcral. E está à vista o resultado. Só acontece aos outros até ao dia que nos acontece a nós. Sim. O nacional-porreirismo, a nossa maneira de ser, também é responsável. 

Dou por mim a pensar que, e nem acredito que vou escrever isto, espero que estas armas tenham como destino um país terceiro. Uma rebelião, ou mesmo grupos de crime organizado do leste europeu. Porque se tiverem como destino células terroristas os estragos serão inqualificáveis. 

O que aconteceu é surpreendente. É revoltante. É inadmissível

Um dia, se em algum atentado numa cidade europeia se descobrir que o armamento utilizado foi originário em Portugal, vamos todos olhar para trás e pensar “como foi possível”. 

Mas foi. 

E é bom que agora assumamos as nossas responsabilidades.

 
Todos nós. 

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Contrato do SIRESP - Isto é a sério?

O único ponto positivo de uma tragédia como a do Pedrogrão Grande – se é que existe algum, tenho imensa reserva em utilizar a palavra “positivo” – é o facto de nos por a todos a pensar. Ao Estado, aos órgãos públicos de soberania, aos órgãos de emergência e apoio e, finalmente, aos cidadãos. Obriga-nos a investigar, analisar, reformular e, espero eu, melhorar. 

O SIRESP – que significa Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal – é o projecto que consiste na concepção, fornecimento, montagem, construção, gestão e manutenção de um sistema integrado de tecnologia trunking digital, para a rede de emergência e segurança de Portugal que permitirá responder adequadamente aos desafios colocados às forças de segurança e da protecção civil na sua actuação diária ou em cenários de emergência - catástrofes, acidentes ou incêndios de grandes proporções. Não sou eu que o digo. É o próprio SIRESP, uma parceira público privada (PPP), no seu site oficial.

Simplificando, é o sistema de comunicações do Estado em casos de emergência ou de segurança nacional. 

Foto: Daniel Rocha (c)

Foto: Daniel Rocha (c)

Sendo uma PPP o contrato do SIRESP é, como todos os outros, altamente polémico. A linha entre interesse público e privado é, também aqui, muito ténue e tende, pelos vistos, a beneficiar os privados. Após vários órgãos de comunicação social terem analisado o contrato, são encontrados alguns pontos bastante interessantes. É o caso da cláusula 17. (Poderão encontrar o contrato aqui: http://www.utap.pt/Contratos/seguranca/SIRESP.pdf )

Diz-nos então parte da cláusula 17, e aturem-me lá com isto: 

  • 17.1 Para os efeitos do contrato, considerar-se-ão casos de força maior os eventos imprevisíveis e irresistíveis, cujos efeitos se produzam independentemente da vontade da Operadora ou da sua actuação, ainda que indirectos, que comprovadamente impeçam ou tomem mais oneroso o cumprimento das suas obrigações contratuais. 
  • 17.2. Constituem, nomeadamente, casos de força maior actos de guerra ou subversão, hostilidades ou invasão, rebelião, terrorismo ou epidemias, raios, explosões, graves inundações, ciclones, tremores de terra e outros cataclismos naturais que directamente afectem as actividades objecto do contrato.

Depois de ler isto vociferei a alto e bom som um palavrão que se ouviu dois quarteirões abaixo.

Isto é a sério? 

Tenho perfeita consciência que as PPP foram, na sua esmagadora maioria, extremamente ruinosas para o Estado – para “todos nós” leia-se. Mas adjudicamos um sistema de comunicações para situações de emergência (como diz o próprio nome) e depois desresponsabilizamos o fornecedor privado se algo correr mal... nessas mesmas situações? 

Ou seja, queremos um sistema de comunicações que funcione e seja eficaz em caso de, por exemplo, um terremoto. Mas se o sistema falhar (nota: o sistema que foi concebido para funcionar exactamente nessa situação) nenhuma coima é imputável ao seu Operador. 

Isto é Orwelliano.

Onde está a responsabilização que deveria existir? Onde está a redundância do sistema em caso de falha? No fundo, onde está a garantia do Estado para com os seus cidadãos, que compete proteger? 

Se isto continuar assim, um dia temos um incêndio de grandes proporções em que o sistema falha e, também como consequência disso, sofremos uma enorme perda de vidas humanas. 

Ah, esperem... 

Já tivemos. Aconteceu há duas semanas. 

Corro o risco de soar demagogo, mas que alguma coisa mude. E que se não for pelos dez milhões que cá andamos que o seja pelas sessenta e quatro famílias de luto. 

Elas merecem. E não é só economicamente eficiente. 

É moralmente obrigatório.

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(foto de capa: Rafael Marchante / Reuteurs)

TAP Vintage - Airbus A330

Deve ter sido uma altura única. Para aqueles que nela voaram, trabalharam ou simplesmente usufruíram dela. Falo dos primórdios da aviação comercial. Que época excepcional.

Sempre que oiço estórias daquele tempo, contadas na primeira pessoa, cresce em mim um verdadeiro sentimento de inveja saudável. Quem me dera ter vivido aquele período.

Hoje vemos a aviação como algo garantido. Algo comum e generalizado. E muitas vezes não nos apercebemos que da “Aventura” à “Rotina” vão apenas algumas dezenas de anos. Passaram pouco mais de cem anos desde que o homem finalmente submeteu o ar à tecnologia. Nós, portugueses, fizemos parte dessa gloriosa história. Cruzámos o atlântico sul, fizemos raides aéreos a África e a Macau. Alguns dos nossos aviadores foram os primeiros cartógrafos de muitas regiões remotas do globo. Tivemos impacto.

A companhia aérea nacional – a TAP Portugal – com pouco mais de setenta anos de existência, ainda hoje é uma das mais reconhecidas companhias aéreas mundiais, com uma imagem forte e um registo de segurança invejável.

Cruzar o Atlântico ou o deserto a bordo de um Airbus A330 não é o mesmo que era na altura da fundação da companhia. Hoje ficamos chateados porque o “wi-fi” não funciona a bordo ou porque não gostamos daquele recheio na sandes. Raios. Mas há setenta anos atrás, e a bordo de um velhinho C-47 Dakota, demorava-se mais de uma semana, com várias paragens, a chegar-se a Lourenço Marques, actual Maputo. Era um “milagre”. Cada voo era uma experiência nova. Um privilégio e, há que dizê-lo também, apenas acessível aos mais abastados.

Um Boeing 747 da TAP Portugal (autor desconhecido)

Um Boeing 747 da TAP Portugal (autor desconhecido)

Com esta nostalgia e consciência histórica em mente, as grandes companhias aéreas mundiais (e já são poucas as que têm História e ainda sobrevivem) têm vindo a promover a pintura de alguns dos seus aviões com esquemas de pintura usados durante os chamados “anos de ouro” da aviação. Quando a aviação era “glamourosa” diz-se. Foi assim com a Lufthansa, com a Aer Lingus, Iberia, entre muitas outras.

Sempre pensei que era uma pena a TAP Portugal não ter uma dessas aeronaves. Com tanta história, com tanto reconhecimento e com tanto carinho por aquela companhia, não fazia sentido a TAP não possuir uma aeronave que nos transportasse de novo para aqueles tempos. E mesmo que não fosse pelo aspecto emocional, que o fosse pelo aspecto estético. As antigas pinturas da TAP eram, à falta de melhor palavra, lindas. Tinham classe. Aquelas décadas de 50 e 60 foram efectivamente anos de ouro da aviação, mas foram-no também do design.

Mas finalmente isso mudou.

A companhia aérea nacional pintou uma aeronave Airbus A330 com uma pintura “retro” da TAP.

E está fabulosa.

Uma pintura não só para relembrar o passado, mas também para nos relembrar que esta companhia (que é nossa e que representa, e muito, a imagem de Portugal lá fora) pode ter um futuro bastante risonho.

Começámos com caravelas. Evoluímos para naus. Depois vieram os barcos a vapor. Passámos para aviões de tela e de madeira. Agora usamos monstros de metal. Mas o espírito, esse, mantém-se o mesmo.

Parabéns TAP.

Parabéns Portugal.

www.merlin37.com/tapretro

Foto: Hélio Sales (c) 

Foto: Hélio Sales (c) 

O "novo" A330 da TAP Portugal com pintura retro. Foto: Diogo Parra (c) 

O "novo" A330 da TAP Portugal com pintura retro. Foto: Diogo Parra (c) 

O "novo" A330 da TAP Portugal com pintura retro. Foto: Diogo Parra (c)

O "novo" A330 da TAP Portugal com pintura retro. Foto: Diogo Parra (c)

O "novo" A330 da TAP Portugal com pintura retro. Foto: Diogo Parra (c)

O "novo" A330 da TAP Portugal com pintura retro. Foto: Diogo Parra (c)

Inferno

É bom que nos lembremos, do conforto do nosso sofá e das nossas casas, que neste momento existem centenas de homens e mulheres, voluntários, dia e noite, a lutar e a dar a vida por nós e pelo nosso património.

É bom que nos lembremos que, enquanto nos queixamos da temperatura elevada com um pé na água, na praia, existem centenas de homens e mulheres, vestidos com fatos anti-fogo e quilogramas de equipamento, a lutar e a dar a vida por nós e pelo nosso património.

É bom que nos lembremos que, enquanto vemos futebol na TV, centenas de homens e mulheres estão deslocados dos seus lares, de forma voluntária, a lutar e a dar a vida por nós e pelo nosso património.

Foto: Estela Silva (c) Agência LUSA

Foto: Estela Silva (c) Agência LUSA

Em terra e no ar. Bombeiros, militares, pilotos, forças da ordem, membros da protecção civil e civis incógnitos fazem tudo o que está ao seu alcance.

Não é bonito. Não é glamouroso. E não é fácil. Nada fácil. Mas eles estão lá.

Dizem por vezes que o inferno desce à terra. Desta vez desceu mesmo.

E quem o encara de frente são eles.

Boa sorte Camaradas.

www.merlin37.com/inferno

A Morte não escolhe

Lá fora o vento soprava violentamente, como se quisesse derrotar por submissão o nosso helicóptero. Por baixo de nós o mar estava forte, cavado, com uma ondulação cruel. Tudo a norte do Tejo fazia lembrar Inverno. E estávamos em Julho.  

Ao nosso lado, a pouco mais de quarenta pés, estava um pesqueiro que teimava em não parar quieto. Nós os cinco estávamos ali para retirar e transportar daquela casca de noz alguém que precisava de ajuda urgente. A operação poderia resumir-se de forma simples: iríamos colocar um homem (por sinal, nosso amigo e camarada) num espaço aproximado de um metro quadrado, num pesqueiro que não parava quieto, com ondulação de cinco metros, através de um cabo de aço ligado à nossa máquina que, por provável solidariedade ou mera teimosia também não parava quieta. E assim o fizemos. 

Foto: André Garcez (c) 

Foto: André Garcez (c) 

Servi sob o comando de um Comandante de Esquadra que nos dizia algo do género: 

Quando a morte chega, ela não escolhe postos, não escolhes amizades, não escolhe géneros.

Aquela mensagem teve um forte impacto em mim e na maneira como voava. Significava simplesmente que, dentro daquele helicóptero, todos nós, desde o Piloto Comandante, ao Co-Piloto, ao Operador de Sistemas, passando pelo Recuperador Salvador e Enfermeiro, somos uma equipa. E como tal devemos trabalhar em perfeita sintonia num ambiente de respeito mútuo e total confiança. A missão por si só já era exigente e complexa, portanto era quase que obrigatório que todos estivéssemos na mesma página. Caso contrário, quando a coisa corresse mal, não havia posto ou amizade que se salvasse. Rodas no ar e todos os nossos problemas, pessoais ou não, ficavam em terra. O foco teria de ser só um. E lá dentro todos tínhamos de nos dar bem. 

Na aviação existe um conceito chamado de “Crew Resource Management” (CRM) que, muito resumidamente, defende que uma tripulação deve trabalhar em conjunto, inquirindo-se quando há dúvidas, e sem qualquer receio ou imposição de autoridade por de quem dela a usufrui. Sem medo de represálias entre eles. Um Co-Piloto não deverá ter medo de dizer a um Comandante que está errado e vice-versa. Chamem-lhe honestidade profissional. 

E aquela frase continua a ser uma das melhores referências a CRM que conheço.

Foi para mim um orgulho ter trabalhado em Esquadras de Voo onde em cada voo a confiança no Homem ao nosso lado era total. Quando tive a sorte de ganhar o meu Comando lembro-me claramente de voar em missões reais e sentir uma calma ímpar fruto da confiança plena em toda aquela malta, “presa” comigo naquele pedaço de alumínio e metal compósito. Quando alguém dizia algo sabia que o dizia sem qualquer tipo de restrição ou problema. Aliás, fazia-me mais confusão como é que eles tinham confiança em mim, um puto de 26 anos aos comandos!
Essa confiança, esse CRM, fazia com que fosse possível colocar um dos nossos homens naquele metro quadrado no convés daquele pesqueiro. 

A confiança, o respeito, o saber ouvir e a humildade de reconhecer o erro próprio, são a base de qualquer boa tripulação. De qualquer bom CRM. De qualquer bom aviador e arrisco-me a dizer, de qualquer boa pessoa. 

Se não for assim é bom que nos lembremos todos daquela frase. 

Quando a morte chega, ela não escolhe postos, não escolhe amizades, não escolhe géneros.

E ela anda sempre à espreita. 

Oito minutos

Lia no Washington Post outro dia, e no rescaldo do ataque terrorista no mercado de Natal em Berlim, que, talvez, a melhor reacção à recente onda de ataques terroristas seria ignorá-los. Defendia o artigo que a excessiva mediatização dos ataques contribuía para a sua glorificação e os tornava, com a complacência dos media ocidentais, em actos de recrutamento. Posição polémica, sem dúvida, mas não está desprovida de lógica. Um ataque terrorista tornou-se, na Europa de hoje, uma infeliz vulgaridade. 

Londres, mais uma vez, sofreu na pele. Já perdi a conta às vezes que lá fui. Gosto dela, da cidade. Do movimento, da mistura, do ambiente e da forma organizada como uma das maiores metrópoles mundiais aparenta funcionar.  

Eficácia. 

Eficácia. 

Aparenta não. Funciona. 

Ontem, pelos piores motivos, foi a prova disso.

Oito minutos. 

Foram apenas oito minutos entre a primeira chamada para as autoridades até que os três suspeitos fossem abatidos. Paremos um momento para nos apercebermos da enormidade e da importância desses oito minutos. 

Numa cidade como Londres, enorme e confusa, bastaram oito minutos para uma resposta eficaz. Parece uma eternidade. Foi-o certamente para as pessoas que estiveram lá e viveram na primeira pessoa o final de dia de ontem. Mas não o é. 

Tão curtos e ao mesmo tempo tão longos.

Oito minutos numa cidade em que a maioria dos polícias patrulham desarmados e, ainda por cima, numa sexta-feira à noite não é impressionante. É exemplar

E essa rapidez talvez seja essa a prova que que já nos habituámos demasiado. 

Talvez seja essa a prova que, para nós, já é “normal”. 

Talvez seja essa a prova que Londres é uma Grande cidade. 

Oito minutos. 

Façam o favor de ser felizes

Que dia

Consigo imaginar-me daqui a largos anos, quando tiver o privilégio de ser avô, a dizer ao meu neto: “o teu avô é do tempo em que nos bares do Cais do Sodré passavam a Eurovisão na televisão”! Ao que antevejo uma resposta “Vai bugiar!”

Mas é verdade. Treze de Maio foi um dia... fora do normal. Frenético. “O regresso dos três F” dizem alguns. 

Aquele que é, porventura, o papa mais amado da história moderna terminou a sua visita a Portugal com a canonização de duas crianças portuguesas, 100 anos após o milagre de Fátima. Eu, que não sou crente, é-me mesmo assim difícil ficar indiferente. O mundo precisa de gajos assim: que em cargos repletos de conservadorismo puro demonstram uma simplicidade ímpar. 

A juntar a isto o Benfica conquistou pela primeira vez quatro campeonatos nacionais seguidos. Chamam-lhe o tetra. Aqui sou suspeito. Sou benfiquista. Mas convenhamos:  é histórico. Porventura o clube português com maior visibilidade mundial celebrou um feito inédito. 

E claro, o Salvador. Lá ganhámos o raio do festival da canção. Podemos não ser fãs dele, da canção ou do programa. Mas ele foi lá. Sozinho e a representar Portugal. E no meio da plateia, cantou. Fê-lo em português. Sem espectáculo, sem fogo, sem dançarinos. Só com a sua voz. E encantou. 

salvador

Eu sei que os velhos do Restelo existem. Estão vivos e de boa saúde. Aparecem no minuto seguinte inundando, não à beira das naus mas inundando as redes sociais. E também sei que não vivemos nos mais amigáveis dos tempos. O país não está saudável, reconheço. Mas porra! Encarem as vitórias com ânimo. Com celebração. Com orgulho e humildade. Celebrem o que há de bom de modo a relativizar o que há de mau. Inspirem-se. Sintam.

Se pecamos, pecamos por celebrar pouco. Por não celebrar aqueles que entre nós se destacam. E há tantos. Se há! 

Celebrar não significa descurar o resto. Não significa ser displicente. Tal como ter bom humor não é sinónimo de falta de profissionalismo. 

Hoje é o dia seguinte. E que dia bom para ser português.

Façam o favor de ser felizes. 

Pelo menos hoje.

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Então havia de ser em quê, Jeoren?

As recentes afirmações do presidente do Euro Grupo estão a fazer furor. Jeoren Dijsselbloem acusou os países do sul da Europa de gastarem o seu dinheiro em “copos e mulheres”. 

Então havia de ser em quê, Jeoren? Cortinados?

Nós por cá exagerámos na reacção, admito. Eu estaria muito mais preocupado se fosse europeu do Norte. Afirmar depreciativamente que nós, do sul, gastamos o nosso (pouco) dinheiro em bebida e em mulheres é o mesmo que afirmar que lá para cima, no Norte, se gasta noutras coisas – quiçá bem piores. É afirmar que os “nórdicos” preferem uma cadeira de design finlandês para a bancada da cozinha por trezentos euros do que uma garrafa de Pêra Manca por um décimo do preço. É afirmar que preferem um pisa-papéis adquirido em Copenhaga por duzentos euros em prol de uma noitada no LUX. É comprar um queijo em Amsterdão por sessenta euros em vez daquele tinto da Cartuxa por quatro euros e meio no Pingo Doce.

Ora, então uma cadeira a 291€ ou um Pêra Manca a 33.50€? 

Ora, então uma cadeira a 291€ ou um Pêra Manca a 33.50€? 

Aí sim, eu estaria indignado! Cadeiras a trezentos euros? Venha mas é o tinto

E convenhamos Jeoren, quando se vem de um país onde é possível pagar aulas de condução com sexo – Holanda – não estarás a exagerar nas generalizações? 

Olha, vou beber um copo em tua honra! 

Saúde! 

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E hoje Comandos?

Soube-se ontem que o destacamento português na República Centro Africana, parte integrante da missão das Nações Unidas naquele país, entrou em combate. Sim, combate real. Por essa acção, que decorreu faz mais ou menos duas semanas, os militares portugueses foram agraciados com um louvor por parte do comandante das forças internacionais no terreno. Pela sua “prontidão operacional e excelente desempenho" na protecção da pequena localidade de Bambari de um grupo de rebeldes que a ameaçava.

O destacamento nacional – que representa a força de reacção rápida naquele teatro de operações – é composto por diversos militares do Exército e da Força Aérea Portuguesa mas, na sua grande maioria, é composto por Comandos. 

Os mesmos Comandos que, há alguns meses atrás, viram a sua existência ameaçada. O seu desempenho questionado e a sua honra manchada na praça pública. Alguns elementos políticos exigiram a sua eliminação a plenos pulmões.  Jornais colocaram-nos na capa. Telejornais abriram a emissão com eles. Gravaram-se reportagens especiais. Escreveram-se inúmeros textos de opinião. Esmiuçaram de fio a pavio o regimento, e, alguns, exploraram até ao limite o sofrimento dos familiares de quem, infelizmente, não sobreviveu. 

Militares portugueses na República Centro-Africana (autor desconhecido)

Militares portugueses na República Centro-Africana (autor desconhecido)

E hoje

Hoje temos um punhado de homens e mulheres – cento e sessenta para ser exacto – que numa missão das Nações Unidas, num dos mais perigosos países africanos, cumprem o seu dever de forma exemplar. Com dedicação, com garra e, há que dizê-lo, com uns tomates do caraças. 

E, digo-o novamente, em combate. Sim. Combate. Não numa qualquer secretária em São Bento, mas no meio de uma selva africana com as balas a zumbirem ao ouvido. Homens e mulheres que, com a bandeira nacional no braço, defendem quem não tem possibilidade de se defender. 

Honram e elevam o nome de Portugal. 

E hoje

Hoje não há capas de jornais. Não há notícias de abertura. Não há reportagens especiais. 

Há somente a saudade angustiante de cento e sessenta famílias.

Algo me diz que para eles é suficiente

Parabéns Comandos. 

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O louvor às tropas portuguesas.

O louvor às tropas portuguesas.

Nada de novo na frente Norte: TAP e Porto

Faz décadas, talvez mesmo séculos, que nós, como povo, vivemos com uma crónica falta de auto-confiança. Isso espelha-se no dia a dia, um pouco por todo o lado. Temos tendência a desvalorizar o que é nacional e, automaticamente, a dar mais valor a tudo aquilo que vem de fora. E quando é altura de criticar, de atirar a primeira pedra, a dualidade de critérios é ainda maior. 

O aeroporto de Saint Étienne anunciou recentemente que rescindiu contrato com uma companhia aérea “low cost” que operava nas suas instalações. Essa companhia aérea efectuava cinco frequências semanais: duas para Fes, em Marrocos, e três para o Porto. Por essas cinco frequências semanais era subsidiada pela autarquia dessa cidade em setecentos mil euros anuais. Setecentos mil euros por cinco frequências semanais. Incomportável para o aeroporto que já tinha um défice superior a dois milhões de euros, referiram os responsáveis. 

Curiosamente este cancelamento de três frequências semanais de uma companhia “low cost” para o Porto não justificou a intervenção de nenhum autarca. 

Mas por cá, como sempre, a polémica entre a cidade do Porto e a TAP Portugal mantém-se.

O negócio do transporte aéreo é excepcionalmente competitivo. É volátil, dependendo sempre de tantas variáveis externas à empresa que uma qualquer crise – seja ela política, económica, social, de matérias primas – poderá levar à falência de uma empresa que era sólida somente à meses atrás. 

É normal que as companhias aéreas utilizem os seus recursos finitos – os aviões – nas rotas onde eles são mais rentáveis. Afinal de contas o objectivo de uma companhia aérea é dar lucro. Obter dividendos. E, até ver, a TAP Portugal embora com cinquenta por cento de capital público é uma empresa de gestão privada (o próprio estado português o refere).
Tendo em conta que a injecção de capital público na TAP é, neste momento, quase nulo, é normal que a companhia tente rentabilizar os seus meios. 

O corte que ocorreu faz uns meses de algumas rotas na cidade do Porto (rotas essas que, aliás, estão novamente a ser reforçadas, subida de 9% de passageiros no último mês de Janeiro), o fortalecimento do “hub” de Lisboa e os preços competitivos de, por exemplo, Vigo para Lisboa, são parte de uma estratégia para voltar a colocar a TAP nos verdes e obter quota de mercado a outras companhias, sendo uma táctica comum a qualquer outra companhia aérea no mercado. 

Sendo que a TAP Portugal é de gestão privada, não podemos querer que ela dê lucro e ao mesmo tempo cumpra os desejos de todos. 

Vivemos num país com pormenores engraçados. Um país geograficamente pequeno em que todos os distritos querem um aeroporto internacional. Temos três em Portugal continental: Lisboa, Porto e Faro. Mas aqui d´el Rei se Beja e Leiria não querem igualmente um. E todos sabemos como correu o projecto de Beja. 

E a mesma linha de pensamento é aplicada à TAP Portugal. Todos querem rotas da sua cidade. E isso, muitas vezes, não é possível. E o que não falta são exemplos por toda essa Europa. 

Quantos voos internacionais tem a Iberia de Barcelona? Quantos voos internacionais tem a Lufthansa de Berlim? A Iberia tem um hub: Madrid. A Lufthansa tem dois: Munique e Frankfurt. Nós teríamos de ter dois? 

Quando se vem a público criticar uma empresa nacional – e até apelar ao seu boicote por razões meramente de orgulho regional – é preciso ter-se consciência da realidade do mercado. A competitividade do negócio do transporte aéreo não é sensível a regionalismos, a paixões ou a opiniões. A realidade dos números é soberana. Para quem pretende ter sucesso, pelo menos. 

Eu não digo que não existam erros de gestão. Não digo que não se devia apostar mais no Porto. Pelo contrário. Provavelmente existe muito mercado por explorar. Mas a TAP Portugal tem de gerir muito bem os ovos que tem para dar o maior número de omeletes possível. Tem de gerir prioridades. 
Afinal o que preferíamos nós todos como cidadãos? Como contribuintes

Uma TAP com lucro significativo e crescimento sustentado mas com alguns voos deficitários a menos no Porto? Ou uma TAP com um “hub” no Porto mas a reportar prejuízo? 

Eu compreendo que um político  “defenda a sua dama”.  Está no sangue de qualquer um. Mas com pés e cabeça. E não atacando um parceiro importante apenas por eleitoralismo político.

Ou então é simples: financia-se e subsidia-se a TAP Portugal como se faz com algumas empresas “low cost”

Saint Étienne pagava setecentos mil euros. Quanto pagarão os municípios do norte pelas mesmas "low cost"? 

Mas disso... disso não convém falar. 

É incómodo.

E não dá votos

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A plataforma

MEDIC 11 ready for departure”. 

“You are cleared for take-off MEDIC 11, wind 340, six knots.”

“Siga, vamos embora, dez pés”.

“Hover checks”. 

Início de tarde de um dia Inverno no Montijo. Estávamos em Março e a Primavera já estava ali à porta. Um dia perfeito para qualquer aviador. Sol, pouco vento e aquele calorzinho sorrateiro que nos preenche a alma. Pouco mais de dez minutos depois de termos recebido o alerta para descolar, estávamos a dez pés em voo estacionário a efectuar os últimos “checks” antes de descolar. 

“Tudo OK. Siga”. 

“Descolagem vertical. Rotação aos setenta pés”. 

Colectivo para cima. Setenta pés. Nariz em baixo e ganhamos velocidade. Volta pela esquerda. Pouco depois a torre do Montijo indica-nos que devemos contactar a frequência rádio de Lisboa Approach. 

Mais uma saída de alerta em que todos nós, dentro daquele helicóptero, sabemos o peso que significa ter aquele indicativo: “MEDIC 11”. 

Tínhamos sido informados da necessidade de efectuar uma evacuação urgente de um tripulante da embarcação “COSL INNOVATOR”. O centro coordenador de busca e salvamento naval tinha requerido a activação do meio aéreo à Força Aérea e daí a nossa saída imediata. Geralmente, e sempre que possível, tentamos em um ou dois minutos obter mais informações sobre a embarcação em que iremos efectuar a recuperação. Essa recolha é – muitas vezes – bastante simples. Entrar no Google, pesquisar pelo nome da embarcação, e imprimir à pressa umas imagens para estudo a bordo. Desta vez não foi possível. Estávamos no helicóptero, mil pés sobre o rio Tejo, praticamente “em branco”. Tínhamos a informação que o nosso objectivo se encontrava a navegar sensivelmente a oitenta milhas a nordoeste do Montijo, mais concretamente ao largo de Peniche, e pouco mais. Quando dizíamos que não há voos iguais, não há mesmo. Às vezes não sabemos o que vamos encontrar. A adrenalina sobe.

“Lisboa Approach, muito boa tarde, MEDIC 11, one thousand feet over the river.”

“MEDIC 11, boa tarde, proceed direct to operational area”.

Entramos igualmente em contacto com o Centro coordenador de Busca e Salvamento presente no Comando Aéreo (CA), em Monsanto. 

“Comando Aéreo boa tarde, daqui é o MEDIC 11”.

“MEDIC 11, boa tarde, confirme se é capaz de aterrar na plataforma para recolha do paciente”.

Eu e o co-piloto olhamos instantaneamente um para o outro. Ambos com olhar incrédulo. Aterrar? Plataforma?  Que raio?

Afinal sempre devem ter descoberto petróleo ao largo de Peniche, dizíamos na brincadeira. 

“Comando Aéreo, MEDIC 11, confirme que a embarcação é uma plataforma de petróleo com heliporto operacional?” 

“Afirmativo. Confirme se será possível aterrar”. 

Respiro fundo e suspiro. Nós, que descolámos em pouco mais de dez minutos, sem nenhuma informação específica sobre o nosso objectivo com excepção da sua localização, não temos evidentemente acesso aos requisitos operacionais da plataforma. O heliporto está certificado para que peso? Com que dimensões? Qual a área de segurança? E qual o sector de aproximação preferencial?  Ali, a cento e cinquenta nós de velocidade, a dois mil pés, a cruzar a linha de costa, seria um “pouco” difícil de confirmar esses factos. 

“Comando Aéreo, daqui é o MEDIC11. Vocês terão de obter essa informação. Por favor tentem saber através deles para que peso está certificado o heliporto.”

Com uma estimativa rápida calculamos chegar à posição aproximada da plataforma com mais ou menos treze toneladas de peso. Estamos relativamente pesados. 

“MEDIC 11, Comando Aéreo, a plataforma informa que o heliporto está certificado para doze toneladas ponto oito (12.8)”. 

“Bem”, penso, “essa questão está resolvida”. 

Mais ou menos a trinta milhas iniciamos o contacto com a plataforma na frequência de emergência marítima. 

“COSL INNOVATOR, good evening, this is Portuguese Air Force rescue helicopter calling you on channel sixteen”.

O contacto é curto, claro e conciso como mandam as regras. Um atestado à experiência de navegação da tripulação da plataforma e à sua familiarização com operações aéreas. Assim dá gosto. 

Descobrimos que se encontram a navegar a uma velocidade de quatro nós. Outra surpresa. Sempre assumimos que a plataforma estaria estacionária ao largo da costa. Não estava. Navegava. Uma plataforma que navegava por meios próprios. 

Iniciamos o briefing com a tripulação da plataforma via rápido e, após uma curta conversa entre todos nós, decidimos efectuar um guincho à vertical do heliporto. A zona era relativamente desimpedida (afinal de contas, aterravam por lá máquinas semelhantes à nossa) e tínhamos uma área de segurança em caso de falha de motor. Executamos o reconhecimento à plataforma e efectuamos a operação. 

Pouco menos de dez minutos depois estávamos de regresso, rumo a Lisboa, para entregar ao INEM o nosso paciente. 

Mais uma missão para o registo da 751

Já tínhamos feito um pouco de tudo. Navios, paquetes, iates, veleiros, pequenas embarcações de pesca, canoas (!), surfistas, náufragos em mar aberto e todo o tipo de material que boiasse e fosse suficientemente forte para aguentar com uma alma humana a bordo. 

Mas uma plataforma a navegar era novidade. Pelo menos nos tempos do EH-101 “Merlin”. Mesmo não tendo aterrado, era a primeira vez... e sendo a primeira vez, claro, o bar de esquadra lá teria de ganhar mais uma grade de cerveja. Mandava a tradição.

E a tradição é soberana. 

Sai uma grade!

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No céu das espumas de barbear

Foi um ano. Dezoito meses. Talvez mesmo dois anos. Ou talvez mais! Não sei quanto tempo duraste. Mas duraste muito. Mais do que era suposto! Serás relembrado com saudade meu querido gel de barbear. 

Bem sei que não fui o amigo perfeito. De facto tenho parte da minha superfície facial coberta permanentemente de “penugem”. No entanto eras tu que me ajudavas a ter um ar civilizado.  A aparar no pescoço, na fronteira da barba. 

Cumpriste o teu dever com coragem. Sempre presente. Estiveste comigo por todo o mundo. Por toda a Europa. Dos Estados Unidos ao Japão. Da Tailândia ao Brasil. Estiveste lá. E, tal como me apareceste numa prateleira de um qualquer supermercado um dia, despareceste sem dar aviso.

Nunca te queixaste. Nunca. Nem mesmo quando a tira de Aloé Vera da lâmina de barbear estava mais gasta que um autocarro da Carris. Aguentaste estoicamente. 

Se Homero fizesse a barba, serias personagem de epopeia estou certo. 

Não sei como estás agora, mas sei onde estás. Estarás certamente no céu das espumas e gel de barbear. Céu esse onde todos os homens têm barba palha d´aço e todas as mulheres ostentam um orgulhoso e voluptuoso buço

Descansa em paz! 

Mereces.

 

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25 de Novembro

Julgava eu que nos esquecíamos apenas da história distante. Remota e longínqua, perdida nos séculos de existência deste país. Pelos vistos não. Esquece-mo-nos igualmente da recente. 

25 de Novembro de 1975. Faz hoje quarenta e um anos. 

Quarenta e um anos em que a ala moderada do MFA, da sociedade e do poder político evitou que passássemos de uma ditadura para outra. Com uns tomates do tamanho do mundo, alguns evitaram que todos os outros voltassem a viver num regime não-democrático. E hoje, passado quarenta e um anos, parece que existe quem queira esquecer. Não gosto de extremismo. É, por definição, a expressão máxima de egoísmo, ignorância e intolerância. 

Seja de direita. Ou seja de esquerda. O que quer que isso signifique. 

Foto: Arquivo DN // Diário de Notícias

Foto: Arquivo DN // Diário de Notícias

Não há 25 de Novembro sem 25 de Abril. Mas também não há 25 de Abril sem 25 de Novembro. 

Como diria Jaime Neves aos seus Comandos: 

“Jurar bandeira na hora que passa é puxar um Portugal eterno. Para além dos homens, para além das ideologias, para além das revoluções.

Soldados! Militares! 

O vosso compromisso não é com os homens. O vosso compromisso não é com as ideologias nem com os partidos, muito menos com as revoluções. O vosso compromisso, a vossa aposta, é com a Pátria!”

Houvessem hoje mais gajos assim.

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Fez-se luz

“Embora, embora, EMBORA! Corre porra”. Atrás de nós, lá ao fundo, via-se os faróis do carro que se aproximava. 

Pelo canto do olho consigo ver que os meus dois camaradas já não estão ali, do meu lado direito. Em dois segundos saltaram, de forma olímpica, uma vedação de arame farpado com quase dois metros de altura.

“Que raio?”, pensava eu. A vedação tinha uma entrada ali à frente. Vinte metros talvez. É dar a corda às pernas. Cinco segundos e estou lá. 

Estava no curso SERE (Sobrevivência, Evasão, Resistência e Extracção). Mais conhecido na gíria militar como “Fuga”. A vida operacional de um piloto militar não passa apenas pelo curso de pilotagem. A Força Aérea Portuguesa (por doutrina NATO) fornece aos seus elementos um variado leque de cursos – de cariz obrigatório – que visam preparar os militares para situações reais de combate. Cursos de sobrevivência em ambiente aquático, curso SERE, tiro de combate, cursos de guerra NBQ (Nuclear/Biológica/Química), Curso Suporte Avançado de Vida, entre tantos outros. 

O SERE era, porventura, o mais temido e mais exigente. 

Embora a maior parte dos pormenores deste curso se mantenham confidenciais, já se efectuaram reportagens sobre o mesmo e alguma da sua dinâmica é de conhecimento público. 

Parte do curso passa por largar os instruendos, durante o Inverno, algures na zona da Serra da Malcata no interior centro do país. Em grupos de três teremos de percorrer todas as noites uma determinada distância, efectuando determinados procedimentos e sempre com malta simpática a tentar “caçar-nos”. Esta fase tem a duração de uma semana. 

Frio. Fome. Sede. Muita sede. E gajos pouco simpáticos. Parece-me um resumo fiel. 

O curso é desenhado de modo a simular a perda da nossa aeronave atrás das linhas do inimigo e obrigar-nos a nós, os instruendos, a aplicar as técnicas que nos foram demonstradas.

Foto: Força Aérea Portuguesa (c)

Foto: Força Aérea Portuguesa (c)

E portanto ali estava eu, já no quarto dia de exaustão, no meio de uma estrada, sozinho entre duas vedações de arame farpado mais altas do que eu.

É importante realçar que a noite estava escura. Escura como breu. Daquelas que raramente sentimos na pele. No ar apenas o som dos moinhos eólicos ali instalados . Whummp. Whummp. Whummp. E nas minhas costas a luz cruel daqueles faróis que se aproximavam. 

Começo a correr. A entrada estava já ali. Vinte metros. Quinze metros. Dez metros. Não me sai da cabeça porque é que raio é que os gajos que estavam comigo saltaram pela vedação em vez de percorrer esta curta distância. Os faróis ainda estavam longe. Cinco metros. Um metro. Isto tudo em três, quatro segundos. Finalmente coloco um pé na entrada. 

Agora imaginem isto. Imaginem que estão de pé, a olhar para um monte que se encontra a uns vinte quilómetros à vossa frente. Esse monte tem uns moinhos eólicos no topo. Imaginem que está uma das noites mais escuras que viram na vossa vida. E agora imaginem que nesse instante, nesse segundo, metade do monte se ilumina. Luz. Luz por todo o lado. Como se um disco voador ali tivesse decidido parar para o condutor esvaziar a bexiga. Provavelmente foi isso que algum espectador que por lá estivesse naquela noite pensou. 

“Mas que caral...”, penso para mim mesmo. No instante em que coloco o pé na entrada daquela propriedade uns três ou quatro focos de luz acendem-se. Sensores de movimento. O seu único propósito? Anunciar a minha posição. Se já não fosse por demais evidente que ali, no centro de toda aquela luminosidade, estava um gajo que não devia estar ali, salvo seja o cabrão do empreiteiro que tratou da obra e decidiu igualmente instalar um alarme sonoro. O ar calmo e frio daquela noite foi invadido por uma gritante, e nada discreta, sirene. Quatro ambulâncias do INEM em uníssono não fariam melhor. 

E eu? Bem, eu nunca desci um monte, montanha ou lá o que um geógrafo chama ao sítio onde estava tão rápido como naquela noite. Fui a correr, às cambalhotas, a arrastar-me pelo meio daqueles pinheiros e rochas. Lá me consegui esconder, muitos metros de quota abaixo. 

Quando toda aquela comoção passou lá me recompus, tirei uns segundos para praguejar contra a minha pessoa e ver se não tinha nada partido. Aproveitei e amaldiçoei o arquitecto que se lembrou de instalar aquela obra do diabo, e iniciei a difícil tarefa de me tentar reunir com os meus camaradas. 

Ao subir o monte passo por uma árvore que me parece ter um mocho como inquilino. 

Olha-me com aqueles olhos bem abertos. Imagino o que lhe vai na mente: 

“Palhaço”.

Podes crer mocho. 

Podes crer.

Para saberem mais sobre a rapaziada e o curso SERE visitem: www.emfa.pt/www/po/ctsfa

www.merlin37.com/fuga

Aqui estamos, prontos para o sacrifício

Mama Sumae. É esse o grito dos Comandos. Originalmente de uma tribo Bantu, do sul de Angola, foi adoptado pelos boinas vermelhas aquando da sua criação. Significa simplesmente “Aqui estamos, prontos para o sacrifício”.

Na sociedade actual, por sinal cada vez mais individualista e rendida ao culto do próprio, não deixa de ser digno existir um punhado de gajos que têm como lema a sua disponibilidade em se sacrificarem por nós. Pelo país. Pela Nação. 

Durante os últimos dias tem-se ouvido um significativo número de vozes a defender a extinção do regimento de Comandos. Dois instruendos, pertencentes ao mais recente curso desta força, faleceram durante o desenrolar do mesmo. Como é natural por estes lados, uma onda populista apoderou-se de quem nestas alturas deveria ter, pelo contrário, a cabeça fria. O ministro da Defesa pondera a extinção do regimento e um partido directamente relacionado com o governo exige em praça pública a extinção dos boinas vermelhas. 

Que fique bem claro: qualquer morte que ocorra em instrução militar é de lamentar. Tem de ser obrigatoriamente investigada. Tem de se perceber a razão e corrigir as causas se necessário. Tem de se punir se tiver existido negligência. O treino deverá levar um indivíduo ao limite. Nunca ultrapassá-lo. Mas daí a se exigir a extinção de uma força é, à falta de melhor, populismo puro e duro. Estaria ao mesmo nível de extinguirmos a prática do futebol por morrer um jogador em campo. De pararmos a aviação comercial porque um piloto se suicidou nos Alpes. De proibir a natação porque alguém morre afogado. 

Foto: (c) Pedro Monteiro (todos os direitos reservados)

Foto: (c) Pedro Monteiro (todos os direitos reservados)

A formação dos Comandos não é dura por capricho. Por gosto ou sadismo dos instrutores. 

É dura por necessidade

É dura porque em combate, quando as balas começam a zumbir ao ouvido, e a confusão e o medo se tornam numa constante, a única pessoa em quem se pode confiar é no homem ao nosso lado. 

É dura porque para sobreviver é preciso ser mais forte. É preciso ser o mais preparado. O mais bem treinado. 

É dura porque tem de se separar o trigo do joio. Porque tem de se descobrir o carácter de uma pessoa. Tem de se descobrir quem o tem e que não o tem. Quem está pronto a ir até ao limite das suas forças para salvar o homem ao seu lado. Para cumprir a missão. Para servir o seu país. 

É dura porque é preciso quem marche trinta quilómetros com trinta quilos às costas.

É dura porque um pequeno erro no Afeganistão, no Iraque ou no Mali pode custar a vida. Os Comandos sabem-no. Estão, ou estiveram, em todos esses teatros de operações. E lá o sol não brilhava a quarenta graus. Brilhava a cinquenta.

É dura porque dela dependem vidas.

Não usa uma boina vermelha quem quer. Usa quem a merece. E quem a usa, usa-a orgulhosamente e com mérito próprio: conceito que alguns, numa sociedade civil habituada a cunhas e favores, terão alguma dificuldade em entender. Ali ainda há valor. Há mérito. Há orgulho e sentido de corpo. Há camaradagem. E muita. 

Quem defende a extinção dos Comandos não só adere a uma vaga de populismo incompreensível como revela uma extraordinária falta de visão geoestratégica do mundo que nos rodeia. Mundo esse onde a utilização de forças especiais ou de elite tem crescido face ao uso de forças convencionais. 

Pode ser que quando alguns dos críticos de hoje se virem aflitos no dia de “amanhã”, sob ameaça da própria vida, comecem a dar valor ao treino daqueles que farão tudo ao seu alcance para os resgatar sãos e salvos. 

É bem provável que estejam Comandos entre eles.  

E, talvez aí, percebam.

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A lista

Trezentos e trinta e dois.

Trezentos e trinta e dois nomes. É esse o número de políticos e juízes do tribunal constitucional que fazem parte da lista de elementos que recebem subvenções vitalícias por parte do Estado. Nessa lista não estão incluídos ex-presidentes da República nem membros do governo regional da Madeira.

E, mesmo assim, são uns expressivos trezentos e trinta e dois.

Muitos nomes familiares e da história política recente se podem ler por lá. De todos os espectros políticos. Ninguém fica “impune”. Da Esquerda à Direita. De Odete Santos a Carlos Carvalhas. De Sócrates, Armando Vara (condenado por tráfico de influências diga-se) a Manuel Alegre e António Guterres. De Duarte Lima (igualmente já condenado pela justiça portuguesa) a Freitas do Amaral. De Mota Amaral a Assunção Cristas.

Sabemos quem está na lista. No entanto – e tão mais importante – sabemos quem não está. Outros nomes.


Nomes como António Lopes, veterano da guerra do Ultramar. António, que serviu o seu país, lutou além fronteiras, leva para casa um suplemento de reforma de cento e cinquenta euros (150) anuais. Sim, anuais. Um pouco diferente dos dois mil oitocentos e dezanove (2819) euros que Carlos Carvalhas recebe todos os meses.

Não me interpretem mal. Muitas vezes remo contra a maré: sou daqueles que pensa genuinamente que os políticos têm de ser bem pagos. Muito bem pagos até. Mas estas subvenções vitalícias deixam-me com um revoltante “fodass” latente na ponta da língua.

Não sou igualmente contra subvenções vitalícias. Acho que diversos elementos da nossa sociedade devem, e merecem, ser reconhecidos pelo seu serviço a todos nós. Pela forma como contribuíram e se dedicaram ao bem geral. Ao bem da sociedade onde se inserem. E, admito, as subvenções podem ser uma das formas de retribuir quem tanto já deu.

Mas sou claramente contra a forma como são atribuídas.


Tenho, presumo, uma definição de “serviço” diametralmente diferente de quem escreveu, aprovou e defende esta lista.

Curiosamente tanto os deputados (a quem compete escrever as leis) como os juízes do tribunal constitucional (a quem compete garantir que elas não vão contra o espírito da República e da Constituição) estão na lista. O que em nada abona a imagem do regime democrático nacional.

Se oito anos como deputado daria direito a uma subvenção, o que dizer de todos aqueles que, vivendo no meio de nós, dão todos os dias o seu trabalho, suor, dedicação e, por vezes, a sua vida, em prol do bem comum?

Mais uma vez o digo: os políticos têm o direito de ser bem remunerados. Têm o direito de receber após cessação da sua função. E para existem mecanismos previstos na lei. A nossa sociedade é, de facto, baseada nesse conceito simples. Chama-se “Reforma”. E se um político trabalha, ganha e desconta – como todos nós – terá uma reforma congruente com o seu estatuto, ordenado e posição social.

Ter subvenções vitalícias para quem legisla, e para quem deveria controlar quem legisla, nos tempos que correm – tempos de crise, de desemprego, de pobreza – não é só economicamente ineficiente.

É moralmente inaceitável.

Estou certo que o António, veterano do Ultramar, concordaria com isto.

Eu também.

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A ferro e fogo

O tipo que inventou a expressão “a história repete-se” sabia do que falava. Poderia muito bem estar a olhar para Portugal quando proferiu essas proféticas palavras. 

O país está a arder. De novo

João Miguel Tavares escreveu um artigo interessantíssimo no jornal Público de ontem.

De 2000 a 2013, e nos países do sul da Europa (Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia) 53.4% de todos os incêndios registados foram-no em Portugal. A área ardida portuguesa foi 37.7% do total desses países juntos. Repito. Juntos. 

“Impressionante” ecoa-me pela cabeça. Já todos sabemos – nós, que andamos por cá neste rectângulo à mar plantado– que para mudar algo em Portugal é preciso anos. Décadas. Quem sabe séculos. Mas enquanto o país arde, pouco a pouco a cada ano que passa, parece que somos incapazes de aprender com os nossos erros. Arriscamo-nos que já tudo tenha ardido quando finalmente aprendermos.

A floresta portuguesa representa sensivelmente 1.2% do produto interno bruto nacional. 9% das exportações de bens portuguesas. É essencial na economia portuguesa de forma directa. Tal como o é indirectamente através do turismo e da qualidade de vida que nos proporciona a nós, cidadãos. É, desde os tempos de D. Dinis, um dos mais importantes bens ao dispor do país. 

Mas esqueçam a parte económica. Concentrem-se meramente na parte prática.

E aí é difícil de não concordar com João Miguel Tavares quando afirma que existe “incompetência política”. 

Anos e anos de contratos de carácter duvidoso com empresas civis de combate a incêndios com valores milionários. Pouco investimento no treino e equipamento de quem combate incêndios. Durante anos um fraco sistema de coordenação e controlo. Um sistema judicial que pouco pune quem comete um crime que, no fundo, é um crime de lesa à Pátria. Contratos de meios aéreos com condições intransigentes. A eliminação sistemática da Força Aérea Portuguesa no combate aos incêndios em prol de concorrentes civis. E por aí em diante. 

Em Portugal, o “fogo” passou a ser uma indústria. Altamente lucrativa para quem nela participa. 

O Estado não só apoia, como fomenta, quem com estas acções lucra. Seja por incompetência no planeamento a longo prazo, seja deliberadamente na escolha dos contratos que administra. 

Vejamos um exemplo em concreto. 

Provavelmente o mais famoso avião de combate a incêndios florestais do mundo chama-se “Canadair”.  De fabrico canadiano, e nas suas diversas versões, é operado por países tão semelhantes no seu clima a Portugal. Entre eles: Espanha, França, Itália, Grécia, Croácia, Turquia e Marrocos (!). Sim Marrocos. O nosso vizinho a sul que na sua maioria é deserto. Seja pela Força Aérea daqueles países, seja por empresas do estado (protecção civil). 

canadair

Será que só nós somos os únicos que estamos bem? 

Será que após treze (!) anos em que dominámos em número de incêndios e área ardida não aprendemos com os nossos erros e com o exemplo dos outros? 

Será que continuamos a apostar em contratos milionários com empresas civis que, quando questionados se será possível enviar aeronaves para o Funchal, respondem que tal “não está contratualizado”? 

Será que continuamos a não investir? A não pensar a longo prazo? A não comprar os meios que o país, ano após ano, precisa? 

Será que continuamos a gastar quatro vezes menos na prevenção do que no combate? Que não aplicamos as lições já aprendidas? 

Estamos rodeados por todos os lados de operadores de “Canadairs”. E nós, aqueles que mais precisam deles, não os temos. 

Este é somente um exemplo no meio de muitos. 

E entretanto o país arde. 

Bato com a cabeça na mesa.

Não é só incompetência política. 

É crime

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Encontrar-nos-emos novamente

Há coisas que um gajo nunca pensa vir a viver na vida

Estão tão distantes como uma notícia na televisão ou uma coluna no jornal. Lá longe. Noutro mundo que não o nosso. 

Não. No nosso isso não acontece. 

Foto: A. Catroga/CAVFAP (c)

Foto: A. Catroga/CAVFAP (c)

Hoje perdi três camaradas. Três.

A Vida tem esse jeito estranho de ser injusta. De ser filha da puta. De aparecer do nada para nos deitar abaixo. De nos roubar a alegria e no lugar dela instaurar uma tristeza e frustração difícil de explicar por palavras. 

Três camaradas, militares, que deram aquilo que de mais valioso tinham ao serviço do seu país. Ao Nosso serviço. 

A sua vida. 

Estavam sempre prontos, fosse no Afeganistão ou no Mali. Nas ilhas ou num qualquer local pelo mundo a necessitar de ajuda. Com aquela bandeira – a nossa – orgulhosamente ostentada no ombro direito. Não por três semanas. Não por um campeonato. Mas todos os dias. Vinte e quatro horas por dia. Pela Pátria. Onde e quando necessário. 

Isso sim, é patriotismo

Nós, pilotos, sofremos um pouco de complexo de invencibilidade. Quando somos novos o céu é o nosso recreio. Aquele infinito azul à nossa frente é a nossa casa, o sítio que escolhemos para dali fazer a nossa vida. Dominamos máquinas de metal contra a violência e incerteza do éter. Voamos baixo, baixinho, ou no limiar da atmosfera. Andamos de cabeça para baixo ou de portas abertas. Lutamos pela Pátria ou ajudamos a salvar vidas. Todos temos a noção dos riscos. Todos. Preparamo-nos para ele. Treinamos intensivamente. Suamos e estudamos até ter todos os procedimentos na ponta da língua. Até tratarmos aquela aeronave, qualquer que ela seja, por “tu”.

E voar? Para nós? Para nós é um privilégio. Um privilégio que temos a honra de viver no dia a dia. Isso faz de nós uma espécie de irmandade. Uma espécie de clube. Dos mais restritos que existe. E, ao mesmo tempo, dos mais abertos. Pronto a receber qualquer um que partilhe desse entusiasmo, dessa paixão.

E é por isso que custa tanto ver alguns de Nós partir para voos “mais altos”. Para lá do éter. 

Bons voos camaradas Bisontes. 

Um dia encontrar-nos-emos novamente

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Please don´t take me home

Cinquenta graus. Deviam estar uns cinquenta graus. O ar era abafado, tropical até. Centenas de mãos, suadas, batiam nos vidros. A cada paragem o ar fresco que entrava por aquelas portas, cruelmente abertas apenas por segundos, sabia a doce salvação.

“Fodass”, pensava, “onde é que eu me vi meter”. 

Estava no meio de um eléctrico de superfície em Lyon. Eu e mais três portugueses. E trezentos galeses. 

Ali, no meio daquelas quatro carruagens, éramos uma pequena ilha no centro de um furacão. 

“Please don´t take me home” cantavam. 

A viagem durou uns vinte minutos. Talvez trinta. Talvez dez. Tinha apenas uma certeza: nunca tinha suado tanto na vida. 

Aos poucos e poucos, e à medida que nos íamos aproximando do estádio, a diferença de nacionalidades foi-se esbatendo. Via-se mais um português ali. Mais dois. Mais três. Até ao ponto em que à chegada ao estádio as hostes estavam mais ou menos equilibradas. Eles de vermelho, e nós também. 

O estádio do Lyon é bonito. Limpo, arejado. “Tem pinta”, diria. Prova que afinal os franceses lá sabem fazer alguma coisa para além de queijos. Sento-me. Do meu lado esquerdo, ali mesmo a uns escassos metro e meio, uns milhares de galeses. Do meu lado direito uns milhares de portugueses. Estou na fronteira. Estou mesmo “naquela linha que separa”. Se isto der para o torto por alguma razão já sei quem vai levar primeiro. Eu. “Que reconfortante!”

Entram as equipas. Cantam-se os hinos. Primeiro o Galês, claro, que o melhor fica sempre para o fim. Cachecóis no ar, esticados, e ecoa a portuguesa por aquelas paredes. Cantada por milhares, cantada por milhões. E finalmente, rola a bola. 

“Corre caraaaallhhhhooooo!”, gritava. Já aqui o disse, não sou subtil a ver a bola, muito menos “in loco”. Algo de mágico acontece ao ver um jogo entre selecções para uma competição internacional. Um jogo entre clubes é intenso, sem dúvida, mas entre equipas nacionais sabe a outra coisa. Sabe a conflito. Como se aquele campo fosse o substituto físico de uma pequena “guerra”. 

Entre suor, gritos e muito praguejar lá vamos para intervalo. Zero no marcador. De empate a empate até à vitória nacional, pensámos todos. Que se foda. O importante é no fim estarmos em Paris. Desço as escadas e segue-se o ritual de todo e qualquer jogo: comer qualquer coisa. A decisão recai sobre um hamburger que mais parece plasticina. Pois é, estamos em França. Haviam de ter uma tábua de Rocquefort que isso é que era serviço. 

O senhor do apito lá dá sinal e aqueles vinte e dois homens em campo começam a correr novamente. 

Estávamos a jogar bem. Com garra. Mais do que aquela que se viu nos últimos jogos. A bola roda para área vinda da esquerda. Um canto marcado de forma curta. Aquele tipo – o melhor do mundo que costumava ter uma namorada russa – eleva-se no ar. Parece que se mantém imóvel, lá em cima, por meio segundo. Como se o tempo parasse, como se tudo à sua volta estivesse relativizado àquele instante. E é o suficiente. 


GOLOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!


Metade do estádio explode em alegria. Salta, grita, mostra as garras. Irrompe em felicidade instantânea. Vingança divina esta. A outra metade do recinto, aquela que cantava que o Ronaldo não valia nada, não se ouvia. Baixavam as orelhas e apercebiam-se todos, subitamente, que falaram antes do tempo. Também no futebol existe “karma”, pensariam certamente. 

(c) UEFA

(c) UEFA

Os lusos, revigorados, cantavam ainda mais alto. Mais forte. Mais longe. Mas não houve descanso. E ainda bem. Poucos minutos depois, ainda toda a gente saltava no ar, a bola lá entrou outra vez naquela baliza. E aquela final, que tinha estado tão longe, estava ali, à mão de semear. Faltavam uns longos minutos de sofrimento. Naquele estádio ninguém se calou. Nunca tinha visto um jogo da selecção com tanto apoio. Parecia uma torcida profissional. 

O árbitro apita. Termina o jogo. Viro-me para o galês, à minha esquerda, do lado de lá das escadas, e retribuo o acto de cortesia que ele fez no início do jogo. Cumprimento-o, dou-lhe uma palmada nas costas. “What a great match. You should be proud of Wales”. “I am”, responde. E com razão. Mesmo a perder, aos noventa minutos, todos eles cantam o hino. Orgulhosos dos onze que os representaram. Assim vale a pena. 

Hora de ir embora. Por entre milhares lá arranjamos lugar num autocarro. Os mesmos quatro.
Curiosamente, e novamente, os únicos quatros portugueses num autocarro cheio de galeses. Tal como na chegada. Com uma pequena grande diferença. Desta vez ninguém cantava. Um silêncio sinistro. As nossas camisolas portuguesas brilhavam no meio de todas as outras, como se de ouro fossem. 

“Please don´t take me home”, tinham eles cantado. 

I´m sorry” dizia eu. 

Mas hoje vão mesmo para casa. 

Que nós vamos para Paris!

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