É assim que somos solidários?

Como povo tivemos, e temos, momentos altos. Mas por vezes conseguimos dar razão a quem nos chama de mesquinhos. 

Recentemente foi anunciado que Portugal iria contribuir para ajudar os seus parceiros europeus no combate a incêndios florestais, contribuindo com bombeiros e algumas aeronaves.

Ao ler os comentários a algumas notícias ou a assistir a uma entrevista feita na Sic Notícias onde o jornalista de forma insistente perguntava "mas quanto custa? ", confesso que fico incrédulo. Mais, confesso que sinto vergonha. O que se passa com alguns dos meus compatriotas? 

Não há nenhum país que tenha sido mais ajudado em alturas de crise de incêndios florestais como o nosso. Bombeiros, aeronaves e veículos espanhóis, franceses, italianos, gregos, croatas, marroquinos, russos, chilenos entre outros, têm combatido, suado e sofrido ao lado dos portugueses nos últimos anos em território nacional. Têm, convém lembrar, falecido ao lado dos nossos compatriotas. 

E quando os outros estão em apuros, quando os outros precisam de nós, é esta a preocupação? Quanto custa? 

É assim que somos solidários

E se os espanhóis, franceses, italianos, gregos, croatas, marroquinos, russos e chilenos pensassem igual? 

Provavelmente já não haveria fogos em Portugal. 

Tinha ardido tudo. 

E agora? Foi azar?

Revoltado. É difícil alguém não se sentir assim.  

Na altura que escrevo estas linhas a protecção civil já confirmou a existência de pelo menos trinta e duas vítimas mortais. Portugal e os incêndios parece o título de uma tragédia grega que se prolonga infinitamente na história recente do nosso país. 

Mas as últimas vinte e quatro horas foram igualmente férteis em declarações surpreendentes.


Disse o Secretário de Estado da Administração Interna que “temos de nos auto-proteger”. Que “Não podemos ficar todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver o problema”.

E ouvimos o Primeiro Ministro referir que: “o país tem de estar consciente que a situação que estamos a viver vai seguramente prolongar-se para os próximos anos”. Em jeito de “habituem-se”. 

Gostaria de relembrar que é dever elementar do Estado garantir a segurança física dos seus cidadãos. É, afinal, por isso que pagamos impostos.

Não faz qualquer sentido responsabilizar o governo - seja ele qual for - pela ocorrência de um cataclismo natural. É redutor e intelectualmente desonesto. É algo incontrolável. O mesmo já não se pode dizer sobre a forma como a reacção ao mesmo é gerida, organizada e implementada. Como se gere a crise e, acima de tudo, as declarações públicas que se emitem. Declarações essas que, nestas alturas, têm um peso importantíssimo.  

Honestamente, as últimas vinte e quatro horas soam a de-responsabilização. 

Foto: Paulo Novais (c) Agência Lusa 

Foto: Paulo Novais (c) Agência Lusa 

O Secretário de Estado com a pasta da Administração Interna a dizer que têm de ser as populações a cuidar de si é Kafkiano. Aparentemente é agora responsabilidade das populações afectadas lutar contra incêndios, sem o treino e sem o equipamento necessário. O Estado nada terá a ver com isso. Quem está a exercer um cargo público desta natureza tem de obrigatoriamente medir muito bem as suas palavras. 

O Primeiro Ministro que, curiosamente, foi titular da pasta da Administração Interna durante vários anos na década passada, dizer que temos de estar preparados para mais é quase como dizer que, só agora, acordámos para o problema. E logo ele que, fruto da pasta que tutelou, já tem a experiência e o conhecimento suficiente sobre a questão florestal portuguesa. 

É absurdo.

É como somente colocar as culpas em mão criminosa. Há com certeza imensa. Mas convém lembrar que quem é responsável por legislar sobre o código penal que pune quem pratica esses mesmos actos é o governo ou a Assembleia da República. Aí reside muita da responsabilidade.

É como o SIRESP. Que continua a falhar, mas nada muda. Nada se altera. Nenhum penalização se exige. 

É como o eucalipto. Que foi durante muito tempo a desculpa mas que, afinal, não é o único “culpado”. 

Não gosto de declarações políticas. Raramente as faço. E neste assunto todos, de todo o espectro político, têm culpas no cartório. Esquerda e Direita. Não há nenhum partido na Assembleia da República, com óbvia excepção para o PAN, que esteja livre de responsabilidades.

Mas parece que sempre que algo corre bem, todos no presente executivo dão palmadinhas nas costas e enaltecem-se perante os eleitores. 


Quando as coisas correm mal, a responsabilidade, essa, nunca passa por ali

Foi assim em Pedrogão. Foi assim em Tancos. Foi assim ontem, 15 de Outubro. 

Como se não existissem ilações políticas a retirar. 

Mas existem. Muitas. 

A fibra de um líder não se vê só quando as coisas correm bem. Vê-se também quando correm mal.

E este Verão as coisas correram mal. Foram mais de cem vítimas mortais. 

É fácil estar revoltado, não é? 

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A ferro e fogo

O tipo que inventou a expressão “a história repete-se” sabia do que falava. Poderia muito bem estar a olhar para Portugal quando proferiu essas proféticas palavras. 

O país está a arder. De novo

João Miguel Tavares escreveu um artigo interessantíssimo no jornal Público de ontem.

De 2000 a 2013, e nos países do sul da Europa (Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia) 53.4% de todos os incêndios registados foram-no em Portugal. A área ardida portuguesa foi 37.7% do total desses países juntos. Repito. Juntos. 

“Impressionante” ecoa-me pela cabeça. Já todos sabemos – nós, que andamos por cá neste rectângulo à mar plantado– que para mudar algo em Portugal é preciso anos. Décadas. Quem sabe séculos. Mas enquanto o país arde, pouco a pouco a cada ano que passa, parece que somos incapazes de aprender com os nossos erros. Arriscamo-nos que já tudo tenha ardido quando finalmente aprendermos.

A floresta portuguesa representa sensivelmente 1.2% do produto interno bruto nacional. 9% das exportações de bens portuguesas. É essencial na economia portuguesa de forma directa. Tal como o é indirectamente através do turismo e da qualidade de vida que nos proporciona a nós, cidadãos. É, desde os tempos de D. Dinis, um dos mais importantes bens ao dispor do país. 

Mas esqueçam a parte económica. Concentrem-se meramente na parte prática.

E aí é difícil de não concordar com João Miguel Tavares quando afirma que existe “incompetência política”. 

Anos e anos de contratos de carácter duvidoso com empresas civis de combate a incêndios com valores milionários. Pouco investimento no treino e equipamento de quem combate incêndios. Durante anos um fraco sistema de coordenação e controlo. Um sistema judicial que pouco pune quem comete um crime que, no fundo, é um crime de lesa à Pátria. Contratos de meios aéreos com condições intransigentes. A eliminação sistemática da Força Aérea Portuguesa no combate aos incêndios em prol de concorrentes civis. E por aí em diante. 

Em Portugal, o “fogo” passou a ser uma indústria. Altamente lucrativa para quem nela participa. 

O Estado não só apoia, como fomenta, quem com estas acções lucra. Seja por incompetência no planeamento a longo prazo, seja deliberadamente na escolha dos contratos que administra. 

Vejamos um exemplo em concreto. 

Provavelmente o mais famoso avião de combate a incêndios florestais do mundo chama-se “Canadair”.  De fabrico canadiano, e nas suas diversas versões, é operado por países tão semelhantes no seu clima a Portugal. Entre eles: Espanha, França, Itália, Grécia, Croácia, Turquia e Marrocos (!). Sim Marrocos. O nosso vizinho a sul que na sua maioria é deserto. Seja pela Força Aérea daqueles países, seja por empresas do estado (protecção civil). 

canadair

Será que só nós somos os únicos que estamos bem? 

Será que após treze (!) anos em que dominámos em número de incêndios e área ardida não aprendemos com os nossos erros e com o exemplo dos outros? 

Será que continuamos a apostar em contratos milionários com empresas civis que, quando questionados se será possível enviar aeronaves para o Funchal, respondem que tal “não está contratualizado”? 

Será que continuamos a não investir? A não pensar a longo prazo? A não comprar os meios que o país, ano após ano, precisa? 

Será que continuamos a gastar quatro vezes menos na prevenção do que no combate? Que não aplicamos as lições já aprendidas? 

Estamos rodeados por todos os lados de operadores de “Canadairs”. E nós, aqueles que mais precisam deles, não os temos. 

Este é somente um exemplo no meio de muitos. 

E entretanto o país arde. 

Bato com a cabeça na mesa.

Não é só incompetência política. 

É crime

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