E agora? Foi azar?

Revoltado. É difícil alguém não se sentir assim.  

Na altura que escrevo estas linhas a protecção civil já confirmou a existência de pelo menos trinta e duas vítimas mortais. Portugal e os incêndios parece o título de uma tragédia grega que se prolonga infinitamente na história recente do nosso país. 

Mas as últimas vinte e quatro horas foram igualmente férteis em declarações surpreendentes.


Disse o Secretário de Estado da Administração Interna que “temos de nos auto-proteger”. Que “Não podemos ficar todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver o problema”.

E ouvimos o Primeiro Ministro referir que: “o país tem de estar consciente que a situação que estamos a viver vai seguramente prolongar-se para os próximos anos”. Em jeito de “habituem-se”. 

Gostaria de relembrar que é dever elementar do Estado garantir a segurança física dos seus cidadãos. É, afinal, por isso que pagamos impostos.

Não faz qualquer sentido responsabilizar o governo - seja ele qual for - pela ocorrência de um cataclismo natural. É redutor e intelectualmente desonesto. É algo incontrolável. O mesmo já não se pode dizer sobre a forma como a reacção ao mesmo é gerida, organizada e implementada. Como se gere a crise e, acima de tudo, as declarações públicas que se emitem. Declarações essas que, nestas alturas, têm um peso importantíssimo.  

Honestamente, as últimas vinte e quatro horas soam a de-responsabilização. 

 Foto: Paulo Novais (c) Agência Lusa 

Foto: Paulo Novais (c) Agência Lusa 

O Secretário de Estado com a pasta da Administração Interna a dizer que têm de ser as populações a cuidar de si é Kafkiano. Aparentemente é agora responsabilidade das populações afectadas lutar contra incêndios, sem o treino e sem o equipamento necessário. O Estado nada terá a ver com isso. Quem está a exercer um cargo público desta natureza tem de obrigatoriamente medir muito bem as suas palavras. 

O Primeiro Ministro que, curiosamente, foi titular da pasta da Administração Interna durante vários anos na década passada, dizer que temos de estar preparados para mais é quase como dizer que, só agora, acordámos para o problema. E logo ele que, fruto da pasta que tutelou, já tem a experiência e o conhecimento suficiente sobre a questão florestal portuguesa. 

É absurdo.

É como somente colocar as culpas em mão criminosa. Há com certeza imensa. Mas convém lembrar que quem é responsável por legislar sobre o código penal que pune quem pratica esses mesmos actos é o governo ou a Assembleia da República. Aí reside muita da responsabilidade.

É como o SIRESP. Que continua a falhar, mas nada muda. Nada se altera. Nenhum penalização se exige. 

É como o eucalipto. Que foi durante muito tempo a desculpa mas que, afinal, não é o único “culpado”. 

Não gosto de declarações políticas. Raramente as faço. E neste assunto todos, de todo o espectro político, têm culpas no cartório. Esquerda e Direita. Não há nenhum partido na Assembleia da República, com óbvia excepção para o PAN, que esteja livre de responsabilidades.

Mas parece que sempre que algo corre bem, todos no presente executivo dão palmadinhas nas costas e enaltecem-se perante os eleitores. 


Quando as coisas correm mal, a responsabilidade, essa, nunca passa por ali

Foi assim em Pedrogão. Foi assim em Tancos. Foi assim ontem, 15 de Outubro. 

Como se não existissem ilações políticas a retirar. 

Mas existem. Muitas. 

A fibra de um líder não se vê só quando as coisas correm bem. Vê-se também quando correm mal.

E este Verão as coisas correram mal. Foram mais de cem vítimas mortais. 

É fácil estar revoltado, não é? 

www.merlin37.com/eagora