O Futuro foi lá atrás

Não me recordo que idade tinha. Sete, talvez oito anos. E “paciência” era a palavra que definia os meus pais. Colado na janela da casa da minha avó, procurava um vislumbre do Concorde, que aterraria e descolaria de Lisboa. Aquela que era a mais rápida aeronave de transporte de passageiros do mundo e iria partir da capital portuguesa para uma volta ao mundo.

Hoje, dia 02 de Março, faz cinquenta anos que o Concorde descolou pela primeira vez, decorria o ano de 1969.   

Quando os aviões eram bonitos!

Quando os aviões eram bonitos!

Custa a acreditar que já passou meio século. E ainda custa mais acreditar que nenhum Concorde – e para esse efeito, nenhuma outra aeronave semelhante – voe hoje pelos céus do planeta. Esse ano – o de 1969 – foi provavelmente o pináculo da indústria aeroespacial humana. O Concorde voaria pela primeira vez e alguns meses depois o homem aterraria na Lua.   

Onde foi parar o nosso espírito empreendedor? Em pouco mais de vinte e cinco anos – de 1944 a 1969 – as viagens aéreas passaram de pequenos bimotores a hélice com capacidade de pouco menos de trinta passageiros, para uma aeronave capaz de voar no limiar da atmosfera a mais de duas vezes a velocidade do som. Um salto tecnológico fenomenal e um atestado à vontade humana de ir mais alto, mais longe e mais rápido. Esse espírito, essa vontade de quebrar barreiras e de ser o “primeiro” foi a partir daí substituído por uma política de redução de “custos” e eficiência. Nunca mais os aviões voaram tão rápido ou tão alto. Nos cinquenta anos seguintes, em termos aerodinâmicos, as aeronaves mantiveram-se com um design bastante semelhante. O voar mais barato, mais economicamente e com um maior número de passageiros passou a ser o benchmark da Indústria. Foi, sem dúvida, a opção mais racional. Democratizou a aviação, e fez do transporte aéreo aquilo que ele é hoje.  

 Mas parte do “glamour” , da “aventura” e do “orgulho” de ir mais além desapareceu da Aviação com aquele que foi o mais belo avião de transporte de passageiros do mundo. Como se as duas realidades – a empreendedora e a mais económica - não fossem compatíveis.

 Já passaram cinquenta anos. E parece que o futuro ficou lá atrás.

 Não estará na altura de voltarmos a olhar mais alto?

www.merlin37.com/concorde50

Spotter

Faça chuva, faça sol. Faça vento, frio ou um calor infernal. Ele estará sempre por lá. O “Spotter”. O entusiasta da aviação. Aquele colete amarelo fluorescente do lado de lá da vedação que cumprimento sempre que posso.

Foto (c) André Nobre

Foto (c) André Nobre

A minha paixão pela aviação é tão antiga como eu. Está lá desde que me lembro. Vibrava quando via um A-7 a cruzar os céus da Beira Interior. Saltava de gozo quando um Lynx da aviação naval teimava em “surfar” as ondas da Caparica. Desesperava por um festival aéreo. O cheiro. O som. O espírito. Tudo naquilo mexia comigo.
E tive o privilégio de passar para o “lado de lá da barricada”. Força Aérea, TAP, mas sempre o mesmo espírito. Aquele de miúdo, de entusiasta.

Muitas vezes ignorados, gozados até, os “spotters” e os entusiastas fizeram mais pela aviação, e pela divulgação da mesma, como ninguém. Por vezes incompreendidos, a paixão que demonstram, que os leva a acordar às quatro da manhã para irem ver uns malucos das máquinas voadoras a 600km de distância devia ser um exemplo para todos, inclusive para quem trabalha “de dentro”. Eles fotografam, eles escrevem, eles divulgam e fazem-no apenas por gosto. Por amor. Sem esperar nada em troca.

A “malta” da minha geração que, como eu, se juntava para ir ver uns aviões são hoje fotógrafos de renome. Jornalistas e escritores para publicações internacionais. Escrevem livros e editam vídeos com centenas de milhares de visualizações. Criam fóruns e blogs que se tornam referência. Levam o nome, ou devo dizer “elevam” o nome, da indústria, das esquadras de voo, das empresas cada vez mais alto.

Em Beja ou em Pedras Rubras. Em Monte Real ou no Faial. De marmita numa mão e máquina na outra. Com a cara vermelha queimada de tanto sol, de fazer inveja a qualquer inglês que passe dois dias no Algarve. Eles estão lá. É raro encontrar uma dedicação assim.

Pela vossa paixão….

… Obrigado “spotters”!