Cidadania

Hoje foi dia de “coletes amarelos”. Tentou-se por cá emular o protesto que marcou o país dos gauleses nas últimas semanas. Diz-se que em França não se protesta, fazem-se revoluções. Após a intensidade daqueles protestos – que levaram Macron a dar o dito por não dito – torna-se difícil de não acreditar nisso. 

Por cá, o movimento dos “coletes amarelos” ficou bem longe das expectativas. Poucos foram os que saíram à rua, não existiu qualquer transtorno significativo e para quem vê as imagens transmitidas na comunicação social fica-se com a ideia que existiam mais coletes azuis (polícias) que amarelos (manifestantes). 

Mesmo assim, foi um dia impressionante. Mas não pelo fracasso do protesto. Este falhou por razões óbvias: faltava-lhe motivo concreto e claro (era demasiado vago, em França a razão do protesto era clara e compreendida por todos: o aumento do imposto sobre os combustíveis e a diminuição da carga fiscal sobre o lucro de grandes empresas),  foi organizado a um dia de semana (em França, o pico alto do protesto dava-se durante o fim de semana, altura em que a maior parte dos franceses poderia protestar sem por em causa o seu ganha-pão) e com ideias incompreensíveis para gerar o caos durante esta sexta-feira (como a sugestão da utilização de drones para fechar o espaço aéreo do aeroporto de Lisboa). 

Foto: LUSA / Rodrigo Antunes (C)

Foto: LUSA / Rodrigo Antunes (C)

Não. O dia foi impressionante por outra razão: pela forma como outros cidadãos, deste mesmo país, trataram os que decidiram protestar. 


Uma breve passagem pelas redes sociais, comunicação social ou mesmo por qualquer café, e apercebemo-nos da forma jocosa (e por vezes insultuosa) como alguns cidadãos se referem aos “coletes amarelos”. Parecemos crianças no recreio a gozar com os colegas. Parecemos putos com instintos primais.

Podemos não concordar com as razões concretas do protesto (como eu não concordo) e podemos não concordar com a forma como foi organizado e executado (como eu não concordo) mas daí a rebaixar aqueles que exerceram o seu direito de protesto vai um longo caminho. Não deixa de ser curioso que muitos de nós olhem com admiração para a sagacidade da sociedade francesa aquando do acto de protesto, para depois desprezar quando a mesma surge por cá. 

Já provámos, como no caso da TSU durante o anterior governo, que somos capazes de nos unir de forma espontânea. De defender um ideal e uma ideia. De lutar contra outras. E isso deveria ser acarinhado. É, porventura, de salutar (e incentivar!) o surgimento de manifestações e protestos sem o crivo de qualquer cor política e sem o crivo de qualquer central sindical (atenção: a tentativa de aproveitamento deste protesto por parte de algumas forças políticas é vergonhosa). O acto espontâneo de protesto é parte integrante (ou deveria ser) de qualquer Democracia. 

Não deixa, portanto, de ser curioso que num país onde mais de metade da população não vota e outra metade elege políticos condenados por corrupção activa, se fale de forma jocosa daqueles que tiveram coragem de vestir um colete e foram para a rua protestar em defesa dos seus ideais e convicções. Mesmo que não concordemos com eles.

 Até parece que tudo está bem neste pequeno pedaço de terra com vista para o mar. Não está.

Só prova que como povo, e em termos de cidadania, temos que evoluir. 

E muito.

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Dia triste

Lá em baixo as cidades passavam-me rápido pelo canto do olho. Estávamos a trinta e seis mil pés, e, como em tantas outras incontáveis manhãs, falávamos os dois no cockpit sobre o estado da Nação.


Lembro-me bem de dizer que  aquilo que iria definir, do meu ponto de vista, o carácter  e dedicação deste governo constitucional não iria ser a recuperação económica. Não iria ser o défice próximo do zero. Nem tão pouco qualquer outro indicador económico. Não. Para mim o que iria defini-lo seria algo muito mais simples: a recondução da Procuradora Geral da República.

Pela primeira vez nas últimas duas décadas de democracia portuguesa, o Estado português teve à frente do Ministério Público alguém de inegável independência profissional, com um claríssimo sentido de estado e com elevado valor moral. Alguém que, sem medo, liderou e lançou alguns dos maiores e mais mediático processos na justiça portuguesa. Sempre com discrição pessoal. Foi atrás de elementos do PSD e do PS. De elementos da Esquerda ou da Direita. E fê-lo sempre como deveria ser feito: de forma profissional e independente. 

Tivemos, no fundo, alguém que dignificou o seu cargo, dignificou a justiça e dignificou a república portuguesa.

Finalmente.

Nada na lei proíbe a recondução de um Procurador Geral da República, embora esse argumento seja usado para quem defendeu a sua não recondução. “Embora não esteja explícito, é esse o espírito da lei. Que não exista recondução”, afirmam. Dizem que seria pouco ortodoxo. Dizem que ajuda a manter a independência do cargo. O que não deixa de ser irónico tendo em conta que a actual Procuradora foi, repito, inegavelmente  a mais independente das últimas décadas. É ainda mais irónico observar o actual governo usar esse mesmo argumento. Governo esse que chegou ao poder de forma tudo menos ortodoxa, tendo aberto um precedente na democracia portuguesa, ao ter sido eleito um partido não vencedor das eleições, com menos votos.

Ficamos com a ideia que para certas coisas valerá a pena quebrar o “espírito da lei”. Para outras não. 

Pessoalmente não acreditava que Joana Marques Vidal não fosse reconduzida. Pensava - erradamente pelos vistos - que não existiria descaramento (sim, descaramento) em retirar alguém tão competente do seu cargo. Que se existia alguma questão em que deveríamos ser pouco ortodoxos, tendo em conta o bem comum e a credibilização do Estado seria esta. Enganei-me. 

Hoje, para mim, é um dia triste. Perdeu-se alguém independente, profissional e corajoso. E mais uma vez a classe política lançou sobre si mesma um holofote de dúvidas desnecessárias. É que à mulher de César não basta ser honesta. É preciso parecê-lo. E o governo neste momento parece tudo menos honesto. 

Embora não seja algo evidente, Joana Marques Vidal foi das mais importantes figuras que serviu o país nos últimos anos. Recredibilizou a Justiça portuguesa. Passámos a pensar que, afinal, a Justiça chega a todos. Seja a um ex-ministro laranja ou a um ex primeiro-ministro rosa. 

A sua recondução seria a mais óbvia das opções. Qualquer pessoa com honestidade intelectual e sentido de estado não teria dúvidas. Para o bem de todos. Do país. da classe política e da justiça. Mas não foi isso que aconteceu. 

Hoje foi um dia triste.

Mas não o foi só para mim. 

Foi-o para a Justiça. Para o país. Para a Democracia portuguesa.  

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Há heróis na multidão

“Estes tipos e a mania de conduzirem do lado contrário da estrada”, era a única coisa que me passava pela cabeça. Lá fora estava frio, daquele húmido que entra pelos ossos. Que tempo tão tipicamente inglês. Ao volante, tentava não ir em contra mão ou levar comigo uma ovelha no para-choques. Perdido numa qualquer aldeia nos arredores de Oxford, eu e um camarada, tentávamos desesperadamente chegar intactos à base aérea de Benson. Era aqui que nós, pilotos de EH-101 Merlin, efectuávamos o nosso simulador de treino anual. 

A comunidade de países que opera este helicóptero é relativamente pequena pelo que em Benson conseguíamos trocar impressões com quase todos os operadores daquela máquina. Ingleses, Japoneses, Canadianos e Dinamarqueses eram presença assídua por aquelas bandas. A juntar a isso um grupo de instrutores de vários tipos de helicóptero, com mais anos de voo do que eu de vida, estavam sempre presentes. 

E é com um deles que me começo a aperceber da particularidade da nossa operação em Portugal. Uma manhã, depois de mais uma viagem do “lado contrário da estrada”, e sem razão nenhuma aparente, discutíamos o alcance efectivo do EH-101. Ao referir o facto que, por norma, íamos em excesso das 370 milhas náuticas do ponto de descolagem, um instrutor dizia-nos que “não podia ser”. Ao que ficámos por ali vinte, talvez trinta minutos, a consultar os manuais e a mostrar-lhe que, para nós, essa era uma operação normal e regular. Erámos, pelos vistos, os únicos que efectuavam missões a tal distância, sob condições tão adversas de meteorologia e sem reabastecimento intermédio (os canadianos aproveitavam as plataformas petrolíferas como ponto de reabastecimento).

Foto: Luís Forra (Agência Lusa) (c)

Foto: Luís Forra (Agência Lusa) (c)

Por vezes, é difícil Portugal reconhecer os seus como profissionais, como bons ou mesmo como excepcionais. Tirando raras excepções – como no futebol – temos a tendência de relativizar pela negativa as nossas capacidades, comparando sempre com o que “vem de fora”. Algo feito “lá fora” parece ser sempre melhor do que algo “feito cá dentro”. É um pensamento negativo tão nosso, intrínseco no nosso ADN popular, com origem indeterminada. Quem sabe, talvez da altura do mapa cor de rosa. 

A realidade é que, mesmo sem esse reconhecimento, por cá temos muita gente muito boa, muito profissional e que nada deve a ninguém por esse globo fora. 

A Esquadra 751 da Força Aérea Portuguesa é um desses casos.

Todos os dias do ano, vinte e quatro horas por dia, aqueles pouco mais de cem militares mantêm em prontidão três alertas de busca e salvamento. Um no continente, um na Madeira e um nos Açores. Cerca de 20% daquele pequeno grupo está sempre de alerta, em prontos a descolar, revezando-se dia após dia, semana após semana, o que dará para perceber o esforço herculano de quem lá trabalha. 

A juntar a isso temos a importância da missão. Busca e salvamento, exigente mesmo nos dias mais calmos. Voar sempre que alguém precisa, faça o tempo que fizer, seja a que hora for. Fui um privilegiado por lá ter servido mais de quatro anos e por ter conhecido os camaradas que conheci. Vê-se por lá muita coisa que, pensamos, só seriam possíveis num qualquer filme produzido em Hollywood. Mas curiosamente, a grande diferença entre a realidade e a ficção é que a ficção tem de fazer sentido. A realidade, muitas vezes, não o faz. E quem quer que por lá tenha passado tem com certeza muitas estórias que os amigos pensarão que são um exagero. Mas não o são. Ali vivem-se situações extraordinárias. Há algo de imensamente reconfortante em ver no nosso dia a dia demonstrações de coragem, de abnegação e de sentido de dever. Sentir espírito de iniciativa ao invés de inércia. Sentir que, numa qualquer noite fria, num qualquer ponto do oceano, se for preciso, há um grupo de homens e mulheres que tudo farão para ajudar quem precisa. Foi, sem qualquer dúvida, um sítio excepcional para se trabalhar.

Por aquela gente sinto verdadeira admiração e respeito. 

Esse espírito, essa coragem e essa disponibilidade de fazer tudo por tudo em prol do próximo, é hoje finalmente reconhecida pela Nação. A Esquadra 751 recebeu das mãos do Presidente da República, Marcelo Rebelo da Sousa, a maior condecoração que um cidadão, ou grupo, pode receber do Estado português: a ordem militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Esta ordem é atribuída por feitos excepcionais de heroísmo militar ou cívico e actos ou serviços excpecionais de abnegação e sacrifício pela Pátria e pela Humanidade. 

Naquela condecoração estão quase quarenta anos de serviço. Milhares de vidas salvas e dezenas de milhares de horas de voo voadas. Estão centenas de militares. Estão muitos sucessos, mas também alguns falhanços. Muitos sonhos, muito suor e muitas lágrimas. E muito esforço familiar.

A Esquadra 751 é a primeira, e única, esquadra de voo da Força Aérea Portuguesa a ter a honra de ser agraciada com tal distinção a título colectivo. Não é, certamente, um pequeno feito. Hoje a Nação reconhece os seus.

Uma Missão extraordinária, só pode ser feita por pessoas extraordinárias.

E eu não me lembro de ninguém mais merecedor para tal. Ainda bem que ainda existem heróis na multidão. 

Aos que lá estão, e aos que por lá passaram, obrigado. 

Parabéns Esquadra 751.

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(c) Força Aérea Portuguesa

(c) Força Aérea Portuguesa

Contrato do SIRESP - Isto é a sério?

O único ponto positivo de uma tragédia como a do Pedrogrão Grande – se é que existe algum, tenho imensa reserva em utilizar a palavra “positivo” – é o facto de nos por a todos a pensar. Ao Estado, aos órgãos públicos de soberania, aos órgãos de emergência e apoio e, finalmente, aos cidadãos. Obriga-nos a investigar, analisar, reformular e, espero eu, melhorar. 

O SIRESP – que significa Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal – é o projecto que consiste na concepção, fornecimento, montagem, construção, gestão e manutenção de um sistema integrado de tecnologia trunking digital, para a rede de emergência e segurança de Portugal que permitirá responder adequadamente aos desafios colocados às forças de segurança e da protecção civil na sua actuação diária ou em cenários de emergência - catástrofes, acidentes ou incêndios de grandes proporções. Não sou eu que o digo. É o próprio SIRESP, uma parceira público privada (PPP), no seu site oficial.

Simplificando, é o sistema de comunicações do Estado em casos de emergência ou de segurança nacional. 

Foto: Daniel Rocha (c)

Foto: Daniel Rocha (c)

Sendo uma PPP o contrato do SIRESP é, como todos os outros, altamente polémico. A linha entre interesse público e privado é, também aqui, muito ténue e tende, pelos vistos, a beneficiar os privados. Após vários órgãos de comunicação social terem analisado o contrato, são encontrados alguns pontos bastante interessantes. É o caso da cláusula 17. (Poderão encontrar o contrato aqui: http://www.utap.pt/Contratos/seguranca/SIRESP.pdf )

Diz-nos então parte da cláusula 17, e aturem-me lá com isto: 

  • 17.1 Para os efeitos do contrato, considerar-se-ão casos de força maior os eventos imprevisíveis e irresistíveis, cujos efeitos se produzam independentemente da vontade da Operadora ou da sua actuação, ainda que indirectos, que comprovadamente impeçam ou tomem mais oneroso o cumprimento das suas obrigações contratuais. 
  • 17.2. Constituem, nomeadamente, casos de força maior actos de guerra ou subversão, hostilidades ou invasão, rebelião, terrorismo ou epidemias, raios, explosões, graves inundações, ciclones, tremores de terra e outros cataclismos naturais que directamente afectem as actividades objecto do contrato.

Depois de ler isto vociferei a alto e bom som um palavrão que se ouviu dois quarteirões abaixo.

Isto é a sério? 

Tenho perfeita consciência que as PPP foram, na sua esmagadora maioria, extremamente ruinosas para o Estado – para “todos nós” leia-se. Mas adjudicamos um sistema de comunicações para situações de emergência (como diz o próprio nome) e depois desresponsabilizamos o fornecedor privado se algo correr mal... nessas mesmas situações? 

Ou seja, queremos um sistema de comunicações que funcione e seja eficaz em caso de, por exemplo, um terremoto. Mas se o sistema falhar (nota: o sistema que foi concebido para funcionar exactamente nessa situação) nenhuma coima é imputável ao seu Operador. 

Isto é Orwelliano.

Onde está a responsabilização que deveria existir? Onde está a redundância do sistema em caso de falha? No fundo, onde está a garantia do Estado para com os seus cidadãos, que compete proteger? 

Se isto continuar assim, um dia temos um incêndio de grandes proporções em que o sistema falha e, também como consequência disso, sofremos uma enorme perda de vidas humanas. 

Ah, esperem... 

Já tivemos. Aconteceu há duas semanas. 

Corro o risco de soar demagogo, mas que alguma coisa mude. E que se não for pelos dez milhões que cá andamos que o seja pelas sessenta e quatro famílias de luto. 

Elas merecem. E não é só economicamente eficiente. 

É moralmente obrigatório.

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(foto de capa: Rafael Marchante / Reuteurs)

Façam o favor de ser felizes

Que dia

Consigo imaginar-me daqui a largos anos, quando tiver o privilégio de ser avô, a dizer ao meu neto: “o teu avô é do tempo em que nos bares do Cais do Sodré passavam a Eurovisão na televisão”! Ao que antevejo uma resposta “Vai bugiar!”

Mas é verdade. Treze de Maio foi um dia... fora do normal. Frenético. “O regresso dos três F” dizem alguns. 

Aquele que é, porventura, o papa mais amado da história moderna terminou a sua visita a Portugal com a canonização de duas crianças portuguesas, 100 anos após o milagre de Fátima. Eu, que não sou crente, é-me mesmo assim difícil ficar indiferente. O mundo precisa de gajos assim: que em cargos repletos de conservadorismo puro demonstram uma simplicidade ímpar. 

A juntar a isto o Benfica conquistou pela primeira vez quatro campeonatos nacionais seguidos. Chamam-lhe o tetra. Aqui sou suspeito. Sou benfiquista. Mas convenhamos:  é histórico. Porventura o clube português com maior visibilidade mundial celebrou um feito inédito. 

E claro, o Salvador. Lá ganhámos o raio do festival da canção. Podemos não ser fãs dele, da canção ou do programa. Mas ele foi lá. Sozinho e a representar Portugal. E no meio da plateia, cantou. Fê-lo em português. Sem espectáculo, sem fogo, sem dançarinos. Só com a sua voz. E encantou. 

salvador

Eu sei que os velhos do Restelo existem. Estão vivos e de boa saúde. Aparecem no minuto seguinte inundando, não à beira das naus mas inundando as redes sociais. E também sei que não vivemos nos mais amigáveis dos tempos. O país não está saudável, reconheço. Mas porra! Encarem as vitórias com ânimo. Com celebração. Com orgulho e humildade. Celebrem o que há de bom de modo a relativizar o que há de mau. Inspirem-se. Sintam.

Se pecamos, pecamos por celebrar pouco. Por não celebrar aqueles que entre nós se destacam. E há tantos. Se há! 

Celebrar não significa descurar o resto. Não significa ser displicente. Tal como ter bom humor não é sinónimo de falta de profissionalismo. 

Hoje é o dia seguinte. E que dia bom para ser português.

Façam o favor de ser felizes. 

Pelo menos hoje.

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Please don´t take me home

Cinquenta graus. Deviam estar uns cinquenta graus. O ar era abafado, tropical até. Centenas de mãos, suadas, batiam nos vidros. A cada paragem o ar fresco que entrava por aquelas portas, cruelmente abertas apenas por segundos, sabia a doce salvação.

“Fodass”, pensava, “onde é que eu me vi meter”. 

Estava no meio de um eléctrico de superfície em Lyon. Eu e mais três portugueses. E trezentos galeses. 

Ali, no meio daquelas quatro carruagens, éramos uma pequena ilha no centro de um furacão. 

“Please don´t take me home” cantavam. 

A viagem durou uns vinte minutos. Talvez trinta. Talvez dez. Tinha apenas uma certeza: nunca tinha suado tanto na vida. 

Aos poucos e poucos, e à medida que nos íamos aproximando do estádio, a diferença de nacionalidades foi-se esbatendo. Via-se mais um português ali. Mais dois. Mais três. Até ao ponto em que à chegada ao estádio as hostes estavam mais ou menos equilibradas. Eles de vermelho, e nós também. 

O estádio do Lyon é bonito. Limpo, arejado. “Tem pinta”, diria. Prova que afinal os franceses lá sabem fazer alguma coisa para além de queijos. Sento-me. Do meu lado esquerdo, ali mesmo a uns escassos metro e meio, uns milhares de galeses. Do meu lado direito uns milhares de portugueses. Estou na fronteira. Estou mesmo “naquela linha que separa”. Se isto der para o torto por alguma razão já sei quem vai levar primeiro. Eu. “Que reconfortante!”

Entram as equipas. Cantam-se os hinos. Primeiro o Galês, claro, que o melhor fica sempre para o fim. Cachecóis no ar, esticados, e ecoa a portuguesa por aquelas paredes. Cantada por milhares, cantada por milhões. E finalmente, rola a bola. 

“Corre caraaaallhhhhooooo!”, gritava. Já aqui o disse, não sou subtil a ver a bola, muito menos “in loco”. Algo de mágico acontece ao ver um jogo entre selecções para uma competição internacional. Um jogo entre clubes é intenso, sem dúvida, mas entre equipas nacionais sabe a outra coisa. Sabe a conflito. Como se aquele campo fosse o substituto físico de uma pequena “guerra”. 

Entre suor, gritos e muito praguejar lá vamos para intervalo. Zero no marcador. De empate a empate até à vitória nacional, pensámos todos. Que se foda. O importante é no fim estarmos em Paris. Desço as escadas e segue-se o ritual de todo e qualquer jogo: comer qualquer coisa. A decisão recai sobre um hamburger que mais parece plasticina. Pois é, estamos em França. Haviam de ter uma tábua de Rocquefort que isso é que era serviço. 

O senhor do apito lá dá sinal e aqueles vinte e dois homens em campo começam a correr novamente. 

Estávamos a jogar bem. Com garra. Mais do que aquela que se viu nos últimos jogos. A bola roda para área vinda da esquerda. Um canto marcado de forma curta. Aquele tipo – o melhor do mundo que costumava ter uma namorada russa – eleva-se no ar. Parece que se mantém imóvel, lá em cima, por meio segundo. Como se o tempo parasse, como se tudo à sua volta estivesse relativizado àquele instante. E é o suficiente. 


GOLOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!


Metade do estádio explode em alegria. Salta, grita, mostra as garras. Irrompe em felicidade instantânea. Vingança divina esta. A outra metade do recinto, aquela que cantava que o Ronaldo não valia nada, não se ouvia. Baixavam as orelhas e apercebiam-se todos, subitamente, que falaram antes do tempo. Também no futebol existe “karma”, pensariam certamente. 

(c) UEFA

(c) UEFA

Os lusos, revigorados, cantavam ainda mais alto. Mais forte. Mais longe. Mas não houve descanso. E ainda bem. Poucos minutos depois, ainda toda a gente saltava no ar, a bola lá entrou outra vez naquela baliza. E aquela final, que tinha estado tão longe, estava ali, à mão de semear. Faltavam uns longos minutos de sofrimento. Naquele estádio ninguém se calou. Nunca tinha visto um jogo da selecção com tanto apoio. Parecia uma torcida profissional. 

O árbitro apita. Termina o jogo. Viro-me para o galês, à minha esquerda, do lado de lá das escadas, e retribuo o acto de cortesia que ele fez no início do jogo. Cumprimento-o, dou-lhe uma palmada nas costas. “What a great match. You should be proud of Wales”. “I am”, responde. E com razão. Mesmo a perder, aos noventa minutos, todos eles cantam o hino. Orgulhosos dos onze que os representaram. Assim vale a pena. 

Hora de ir embora. Por entre milhares lá arranjamos lugar num autocarro. Os mesmos quatro.
Curiosamente, e novamente, os únicos quatros portugueses num autocarro cheio de galeses. Tal como na chegada. Com uma pequena grande diferença. Desta vez ninguém cantava. Um silêncio sinistro. As nossas camisolas portuguesas brilhavam no meio de todas as outras, como se de ouro fossem. 

“Please don´t take me home”, tinham eles cantado. 

I´m sorry” dizia eu. 

Mas hoje vão mesmo para casa. 

Que nós vamos para Paris!

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Valentes e Imortais

O calor era infernal. Tórrido. Quase insuportável. Estamos em finais de 1540 e desembarcam quatrocentos portugueses na costa da Etiópia. Todos eles voluntários. Provavelmente nunca tinham visto deserto nas suas vidas.

Naquela que será porventura uma das menos conhecidas campanhas portuguesas, estes homens comandados por Cristóvão da Gama (filho mais novo de Vasco da Gama) respondiam a um pedido de auxílio do reino de Preste João (na realidade o império cristão da Etiópia governado por Dawit II) invadido por forças muçulmanas.

Quatrocentos portugueses que em duas batalhas derrotaram um inimigo muitíssimo superior. Imagino os tomates necessários para manter pé firme com uma armadura mais quente e pesada que um pequeno forno. A força falhou na terceira batalha tendo os lusos sido derrotados. Gama perdeu a cabeça. Literalmente, decapitado. No entanto os cem sobreviventes juntariam-se ao exército local e, finalmente em 1543, expulsariam o exército invasor. 

Quatrocentos portugueses. Um quatro seguido de dois zeros. Quatrocentos tipos provenientes de um rectângulo ali no fundo da Europa mas que valiam por quarenta mil. 

A nossa história está repleta de episódios semelhantes. Episódios onde uma mão cheia de portugueses – com muita sorte, engenho e coragem à mistura – se fizeram valer por muitos mais... 

Portugal.

portugal

Somos o país de Viriato e de Afonso Henriques. O país de D. João II e de D. Manuel. 

Somos o país de Henrique o navegador, de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral. O país de Afonso de Albuquerque e Nuno Álvares Pereira.

Somos o país de Fernão Mendes Pinto. O país de Damião Góis e Gil Vicente.

Somos o país de Camões. De Eça. De Saramago e Lobo Antunes. O país de Fernando Pessoa e Almeida Garrett. 

Somos o país de Egas Moniz e António Vieira. O país de António Damásio e Pedro Nunes. 

Somos o país de Nuno Gonçalves e Paula Rego. 

Somos o país de Carlos Lopes, Mourinho, Eusébio e Ronaldo. O país de Amália e Carlos Paredes. 

Somos o país de Siza e Souto de Moura. 

Somos o país de Sacadura Cabral e Gago Coutinho.

Somos o país de Aristides de Sousa Mendes. 

Somos o país de Bocage. Ou como diria o próprio, “o país de Bocage caralho”!

 

E como estes existem centenas... milhares de tantos outros. 

Exemplos e inspirações pela positiva. Como também os há pela negativa é certo. 

Mas não nos faltam razões para ter orgulho pois não? 

Não.

Não falta

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1922

Belém. Quem passa por aquela zona à beira rio num dia de sol mal repara naquela réplica de aço de um biplano que por ali se encontra. Há quem tire consolo da sombra que aquelas asas oferecem. "Dádiva dos deuses", pensarão quando o calor aperta. E quem, por curiosidade, tenta ler o que naquela placa está gravado é defrontado com um texto quase imperceptível. Culpa de anos e anos de exposição aos elementos. Frio, chuva e calor que fizeram desaparecer aquelas palavras de homenagem. 

Mas essa culpa é também dos que andam por cá: Nós.

Prontos para mais uma noite no LUX. Ou isso ou cruzar o Atlântico sul. 

Prontos para mais uma noite no LUX. Ou isso ou cruzar o Atlântico sul. 

30 de Março de 1922. Faz hoje noventa e quatro anos (texto de 2016) que de ali próximo descolaram dois portugueses numa máquina construída de tela e madeira: um hidroavião baptizado de “Lusitânia”. Os seus nomes? Gago Coutinho e Sacadura Cabral. O seu destino? Brasil. 

Aquela seria, pela primeira vez na história, uma travessia do Atlântico Sul. E mais do que o feito aeronáutico de levar uma aeronave tão longe seria o feito de lá chegar, ao local exacto: usariam uma inovadora técnica de navegação aérea desenvolvida por Gago Coutinho. 

Um feito épico. Uma viagem em que – mais uma vez – os portugueses demonstrariam que eram capazes de ser empreendedores. Com os tomates no sítio e com a cabeça fria, chegariam lá. E seríamos os primeiros a fazê-lo. Como se aquele espírito das Descobertas ainda vivesse naquelas asas. 

Foram setenta e nove dias. Três aeronaves. Uma amaragem. Uma falha de motor. Certamente muito suor, palavrões e insultos à mistura. E mais de 8000km de viagem. Mas chegaram. Chegaram ao seu destino e fizeram história. 

Foram (e gosto de pensar que ainda são!) o orgulho de um país. Inscreveram Portugal na história aeronáutica e provaram mais uma vez que aquela nação pequena era mesmo valente e capaz de coisas grandiosas. 

lusitania

E passam noventa e quatro anos. Aquela placa imperceptível continua igual. Como se tal feito fosse cruelmente eliminado da nossa memória colectiva. Pouco se fala. Pouco se comenta. Pouco se lembra. 

Bem sei que hoje chegamos ao Brasil em nove horas. Confortavelmente sentados a 40.000 pés, a olhar pela janela. Até nos chateamos quando a temperatura está um pouco alta na cabine ou o entretenimento a bordo demora muito tempo a iniciar aquele filme que queríamos ver. Mas isso é hoje. Quase um século depois. 

Aqueles dois tipos que deviam ser uma inspiração para todos nós, exemplo de engenho e arte, são infelizmente relegados ao esquecimento. 

Não comemoramos os nossos heróis neste país. Não os celebramos como exemplo do que somos capazes. Como se, de forma algo surpreendente, tivéssemos vergonha das glórias do passado. Não devíamos.

Abano a cabeça em sinal desilusão. Ao menos arranjem aquela porra de placa. 

É o mínimo que podemos fazer. 

E isso não é ser picuinhas. Não é ser saudosista. Não é ser nacionalista. Não.

É tão simplesmente o nosso Dever

Como povo. Como Nação.

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Obrigado

11 de Novembro de 2014. Estava eu em Bruxelas. Feriado nacional. 

Tanto na Bélgica como numa série de países – da Austrália ao Canadá, do Reino Unido à Holanda – celebrava-se o chamado “Remembrance Day”. Fazia então precisamente 96 anos que à 11ª hora do 11º primeiro dia do 11º mês foi assinado o armistício que terminou com a primeira grande guerra. 

Na Bélgica, como em muitos outros países,  celebravam-se aqueles que tombaram em combate. Aqueles que deram a sua vida pelo seu país. E aqueles que sobreviveram. Os veteranos. 

É, como o próprio nome indica, o dia da lembrança. Para que nunca se esqueçam aqueles que fizeram o derradeiro dos sacrifícios.

E olhei para o meu país. 

CEP

Participámos igualmente na primeira grande guerra. O CEP – Corpo Expedicionário Português – sofreu mais de 7000 baixas, a pouco mais de 50 km de onde me encontrava. Em África, tanto em Angola como Moçambique lutámos igualmente, da maneira possível, de forma valorosa. 

Quem visse o estado deplorável do nosso cemitério nacional na Bélgica não o diria. Não entendo, nem concebo, uma nação que não respeita aqueles que por ela lutaram. Aqueles que por ela deram, literalmente, tudo. 

A distância temporal e geográfica tende a fazer desvanecer a memória de um povo. O desinteresse, o esquecimento, a inércia instalam-se. Sempre admirei a forma como os restantes povos europeus celebram, respeitam e lembram os seus mortos e veteranos sempre com uma imparcialidade e objectividade incrível. Não julgam as guerras. Não julgam as razões. Não julgam a política. Lembram, e apoiam, apenas aqueles que lutaram e estão, ou não, entre os vivos. 

Independentemente de todas as razões ideológicas ou políticas, existem ainda hoje em Portugal milhares de homens e mulheres que lutaram pela bandeira nacional. Por Portugal. E esses – tal como aqueles que tombaram faz 100, 500 ou 800 anos – merecem o meu profundo respeito. Fosse nos campos da Flandres ou na selva guineense deram o melhor da sua vida pelo seu país. 

O lema da Armada,  orgulhosamente presente em todos os navios, refere muito simplestemente “A Pátria honrai que a Pátria vos contempla”. 

Quer-se-me parecer que cada vez menos a Pátria “os contempla”. 

E a Pátria somos todos nós. Todos. E todos lhes temos uma dívida de gratidão.

Obrigado.

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Ceuta

(Escrito a 21 de Agosto de 2015)

Faz hoje - 21 de Agosto - 600 anos que um pequeno reino europeu encheu o peito de ar, vestiu uma armadura e com um punhado de tomates considerável atravessou o mar e foi conquistar Ceuta.

conquistaceuta

Esta data não é importante apenas porque representa o início daquilo a que nós designamos de Descobrimentos. E muito menos por ter sido uma conquista pelas armas. 

É importante porque nos relembra algo com 600 anos. E ter 600 anos de história é obra! E antes desses 600 ainda existiram quase outros 300. Já andamos por cá faz um tempo

É importante porque nos galvaniza com o facto de que uma pequena nação entalada entre o mar e um reino de onde nem sequer aparecem bons casamentos ser capaz de fazer coisas grandiosas. 

É importante porque nos recorda que um dia, nós, “nação valente e imortal”, fomos donos disto “tudo”, fruto apenas da coragem, inteligência e visão demonstrada na altura.

É importante porque nos deveria elucidar para o facto de Portugal ser mais que os últimos 30 anos. São quase 900! 900 anos em que sempre que foi preciso levantámos a voz e dissemos a quem quer que viesse para aqui arranjar confusão que a coisa ía dar para o torto!

É importante porque nos deveria motivar ao saber que somos feitos do mesmo material, do mesmo sangue, da mesma fibra dos gajos que há 600 anos se meteram nuns barcos e foram ali para sul dos Algarves fazer das suas e dar novos mundos aos mundos.

E se eles o conseguiram... nós, à nossa maneira, também o podemos fazer. 

Um pouco de orgulho nacional não fica mal a ninguém. E não, hoje não joga a selecção.

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