O que é que eu tenho a ver com isso?

Existem duas frases que, a nível profissional, me tiram do sério. Uma delas é: "Isso dá muito trabalho." A outra: "O que é que eu tenho a ver com isso?"

Durante a minha carreira, felizmente, ouvi-as poucas vezes. Mas, sempre que surgiam, fazia questão de tentar repor aquilo que, para mim, era um pequeno acto de justiça poética.

Esta história é sobre a segunda.

A Esquadra 552 mantém, há muitos anos, um destacamento na actual Base Aérea de Ovar. Quando lá passei, Ovar ainda era um Aeródromo de Manobra e a única aeronave baseada na unidade era um Alouette III em destacamento permanente.

Esse destacamento, composto pelo helicóptero e por uma tripulação completa, assegurava o alerta de Busca e Salvamento no norte do país, sendo o único meio da Força Aérea baseado a norte de Leiria. As tripulações rodavam semanalmente e era frequente realizarem voos de treino, quer para familiarização com a área, quer para manutenção das qualificações dos vários elementos.

Foi num desses destacamentos que eu, Alferes maçarico e Comandante de Destacamento, recebi a informação de que tínhamos de realizar um voo de treino para manter a qualificação.

"Epá, boa notícia", pensei.

Era uma lufada de ar fresco. Todos queríamos voar e, naquele caso, era mesmo obrigatório, porque alguns de nós estavam prestes a perder a qualificação. Estes destacamentos eram, regra geral, bastante monótonos e um treino de Busca e Salvamento representava uma muito bem-vinda dose de acção naqueles sete dias.

Por mero azar, nesse dia uma acção de manutenção inopinada atrasou a descolagem para perto da hora de almoço. Descolámos, seguimos para a linha de costa e realizámos o treino de recuperação em mar aberto. Era um voo exigente, em que a coordenação de toda a tripulação era essencial, mas também extraordinariamente divertido.

Regressámos a Ovar, demos um "banho" ao helicóptero, o Operador de Guincho ficou a preparar a aeronave para regressar ao estado de alerta, o Recuperador-Salvador foi tomar banho e eu sentei-me para começar a preencher o relatório de missão. Deviam ser 13h20, talvez 13h30.

Ovar tinha uma particularidade. O nosso hangar ficava no extremo norte da unidade e a Messe no extremo sul. Como a distância entre ambos era de vários quilómetros, existia um transporte que levava os militares em dois horários: às 12h00 e às 13h00.

Olhei para o relógio e pensei, na minha ingenuidade de Alferes:

"Ligo já para a secção de transportes para ver se ainda conseguem levar os meus homens a almoçar."

Mal marquei o número, ouvi do outro lado uma voz claramente incomodada por ter sido interrompida.

— Sim...

— Boa tarde. Daqui o Alferes Nunes, comandante do destacamento de Busca e Salvamento...

— O que é que quer, Alferes? — respondeu o Tenente, comandante da secção de transportes, numa voz que reconheci de imediato.

— Meu Tenente, terminámos agora o nosso voo de treino e precisava de uma carrinha para transportar a minha tripulação para o almoço.

Fez-se silêncio.

Tão longo que cheguei a pensar que a chamada tinha caído.

Até que a voz regressou.

— Oh, Tenente... O que é que eu tenho a ver com isso?

E aí estava ela.

A frase que fazia com que a minha veia da testa saltasse.

"O que é que eu tenho a ver com isso?"

— Peço desculpa... — respondi. — Estou a ligar para a secção de transportes?

— Sim.

— E estou a falar com o comandante da secção de transportes?

— Sim.

— Com licença.

E desliguei.

Resisti à tentação de lhe explicar que aquela secção existia precisamente para apoiar a unidade. Que o Aeródromo de Manobra existia para apoiar os meios aéreos que ali operavam. E que, naquele caso, esses meios resumiam-se, em exclusivo, ao nosso helicóptero.

Suspirei.

Respirei fundo.

Peguei novamente no telefone.

Desta vez, liguei directamente para as Operações Aéreas do Comando Aéreo, em Lisboa.

— Bom dia. Daqui o Alferes Nunes, comandante do Destacamento Aéreo de Ovar. É para informar que o alerta de Busca e Salvamento está cancelado no norte do país...

Expliquei o motivo.

Três minutos depois, como que por magia, estava uma carrinha à porta do hangar.

Como é evidente, se naquele instante nos tivessem accionado para uma missão real, teríamos todos embarcado com um sorriso na cara. Mas aquela atitude não podia passar sem resposta.

Hoje parece-me ouvir esta frase cada vez com mais frequência, um pouco por todo o lado. Em organizações públicas e privadas. Vinda de pessoas cuja principal decisão é, precisamente, não decidir. Um confortável laissez-faire que esquece um princípio simples: ser profissional e ajudar alguém.

Mais tarde, depois do jantar, esse Tenente apanhou-me a um canto e decidiu brindar-me com uma valente descasca por ter, alegadamente, ligado ao Comando Aéreo e cancelado o alerta por causa dele.

Enquanto o ouvia, não consegui deixar de sorrir.

Afinal...

O que é que ele tinha a ver com isso?

Tudo.

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(Fot0 de capa: Marc0s Figueiredo (c) )