A Pátria honrai, que a Pátria vos contempla

A cada trovão, a cada relâmpago, aquela imensidão negra lá fora tornava-se familiar. Era possível reconhecer os contornos dos montes e do terreno que passava por baixo de nós. Nem que fosse por uns meros segundos. Visualmente, voávamos por fotografias. Estávamos a dois mil pés, rumo a Peniche. Duas da manhã. Talvez três. Tinha-me qualificado há pouco mais de um mês e esta era a minha primeira missão operacional como piloto de busca e salvamento na Esquadra 751. Estávamos em final de Fevereiro, e lá fora o tempo teimava em não perdoar. Ventos fortes, visibilidade baixa, vagas de oito a dez metros no mar. Fomos activados para efectuar uma busca a dois estudantes que tinham desaparecido em Peniche, caídos ao mar. Lembro-me de pensar que seria um “milagre alguém sobreviver nestas condições”. 

Estivemos no local quase três horas. A domar os elementos da natureza com os nossos três motores e o nosso gigante rotor. Todos de olhos postos lá fora, à procura do mais ínfimo sinal de esperança. De vida. 

“Que noite de merda”, pensava. O ar estava tão turbulento que já tinha os olhos cansados de tentar ler os instrumentos do helicóptero. Os olhos, e o corpo, pediam por descanso.  

Mas por mais que as condições naquela madrugada estivessem más, péssimas mesmo, não foi isso que mais me impressionou. 

O que me impressionou foi quem connosco lá estava.

Ali, uns meros cem pés por baixo de nós, navegava uma corveta da Armada portuguesa. Um pequeno navio, construído na década de sessenta, que enfrentava aquelas vagas, do tamanho de uma casa, de frente. Se eu estava a levar “porrada”, se eu estava desconfortável, se a nossa máquina estava instável, eles estavam bem pior. Recordo-me de ver toda a secção dianteira da corveta fora de água e o consequente embate violento no seu regresso ao oceano. E era assim, vaga após vaga. 

“Aqueles gajos têm uns tomates do tamanho do mundo”, comentámos entre nós. E tinham. Estar ali, naquelas condições, dentro de um casco de alumínio e aço, a escassos metros de terra, não era para qualquer um. Não era e não é para qualquer um. Ali, naquela madrugada, naquele momento, senti a mais profunda admiração e orgulho pela Marinha portuguesa. Aqueles gajos fariam o Infante Don Henrique orgulhoso. 

 É preciso ser-se um alguém especial para estar ali dentro. (Foto: autor desconhecido)

É preciso ser-se um alguém especial para estar ali dentro. (Foto: autor desconhecido)

Existem poucos países no mundo com tamanha tradição naval como Portugal. A Marinha de guerra portuguesa, a Armada, está intrinsecamente ligada à história do nosso país. À nossa nação, a nós como povo, e às nossas tradições. 

Fosse no primeiro embate contra a frota sarracena, nos Descobrimentos, na manutenção da nossa soberania ou na salvaguarda da vida humana, falar da Armada é falar de Portugal.

Este ano, 2017, celebram-se setecentos anos sobre a formação oficial da Marinha de guerra portuguesa. Setecentos anos. Não estamos a falar de vinte e cinco. De cinquenta ou de cem. Nem de duzentos. São setecentos anos de Armada. Setecentos anos de história. De tradições. De combate. De coragem (muita!) e de ousadia. De ir do Brasil ao Japão em cascas de madeira. De fazer de Portugal, uma das mais pequenas nações da Europa, a maior de todas. De ir para além do mundo conhecido e dar “novos mundos ao mundo”.

Não é só Portugal que deve muito à sua Marinha. É toda a civilização ocidental. 

Nos dias que correm gostamos imenso de falar de Portugal e do mar. De como ele é importante para nós, de como faz parte da nossa maneira de ser, de como nos influencia e de como o nosso futuro, tal como o nosso passado, passa por ali: aquele profundo azul. 

Pois bem, quem nele nos representa, quem dele se ocupa, quem dele cuida e quem dele protege é a nossa Marinha. E fá-lo há setecentos anos. 

A história da Marinha é indissociável da história portuguesa. E foda-se, que magnífica história é essa! 

Em todos os navios da Armada está orgulhosamente inscrito o lema “A Pátria honrai, que a Pátria vos contempla”

E está na altura da a Pátria contemplar a Marinha. Pois ela muito nos honrou, e honra, como Nação, por esse mundo fora. 

Parabéns Marinha portuguesa. 

E obrigado. 

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