E tudo Tancos levou

“De bestial a besta num instante” já diz o ditado. 

Em pouco menos de duas semanas, como que por providência divina, tivemos dois acontecimentos que nos relembraram da nossa condição de falíveis. Após a vitória no Europeu de futebol e de uma vitória no Euro Festival da canção, que elevaram os ânimos da Nação, veio o incêndio de Pedrogão e o assalto ao arsenal de Tancos. Afinal, não só quando as coisas correm mal é “que a vida continua”. Quando correm bem também. E às vezes continua para pior. 

Dizia o EL PAÍS, um dos maiores periódicos espanhóis, em tons de gozo, que Portugal é de facto um país tão seguro, que qualquer pessoa pode ir a Tancos roubar uma arma.

E é (muito) difícil, neste caso, de não nos sentirmos merecedores desse insulto.

Como tem sido apanágio da vida pública nacional todos tentam desresponsabilizar-se. A oposição ataca o governo. O governo atribui culpas ao passado da oposição. O Estado Maior do Exército faz rolar cabeças na hierarquia militar. As forças armadas acusam o poder político. O “povo”, sempre com sede de sangue e quase sempre sem nenhum conhecimento de causa, culpa tudo e todos. Alguns até se remetem ao silêncio.

 Foto: Global Imagens (c)

Foto: Global Imagens (c)

Talvez ninguém tenha razão. Ou talvez tenham todos. Sim. Todos. 

As responsabilidades directas terão de ser apuradas, não tenho dúvidas. Quem efectou o assalto, e com que objectivo? Existiu colaboração interna? Houve negligência na vigilância? 

Mas as responsabilidades indirectas, dessas, ninguém se safa. E eu resumiria os três grandes responsáveis por essas de forma clara:

  1. O poder político. Por mais que qualquer ministro da defesa, primeiro ministro, ou qualquer outro membro do executivo dos últimos quarenta anos negue, tem existido um desinvestimento claro, contínuo e significativo nas forças armadas. O orçamento da defesa está longe dos 2% do produto interno bruto (PIB) exigidos pela NATO. A quantidade de efectivos reduziu tanto que nem uma divisão conseguiríamos equipar no Exército Português. O número de exercícios, de treino e de aprontamento nunca foi tão baixo. E parte do equipamento está obsoleto. Não dá votos, portanto corta-se. É, no mínimo, um insulto para quem jurou dar a vida em prol da manutenção da soberania nacional. É que quem lá serve – nas forças armadas – são pessoas como nós. Filhos, pais, mães e amigos. Mas quando for preciso, esperemos que não, são os primeiros a dar o peito às balas. Literalmente. Portanto, sim, o poder político, seja qual for o espectro político, é responsável pelo que aconteceu.
  2. O topo da hierarquia militar. Desde há muito tempo que parte da hierarquia militar de topo é influenciada politicamente. Não me interpretem mal: numa Democracia o poder militar, as forças armadas, deverão sempre – e reitero, sempre – depender, sujeitar-se e ser um braço do poder político. Mas isso não significa que não mantenham a sua independência em termos de gestão interna, funcionamento orgânico e, acima de tudo, de respeito para com os seus homens e dever com a Nação. Não é segredo nenhum que a escolha de alguns generais é feita por nomeação política, favorecendo alguém de determinada cor partidária em prol de, talvez, alguém mais competente ou alguém que questione quando é necessário. À frente das forças armadas pretende-se ter alguém que pense independentemente de quem está por cima, capaz de atirar com os pés à parede quando a situação assim o dita. Já dizia John Boyd: “Se o teu chefe te pede lealdade, dá-lhe integridade. Se te pede integridade, dá-lhe lealdade”. Tão verdade. Nas forças armadas jura-se defender a Pátria. Não um governo, um sistema político ou um partido. E nos últimos anos a hierarquia de topo militar foi complacente, por vezes até cúmplice, do poder político existente da altura. E isso faz dela responsável.
  3. O nacional-porreirismo. E aqui, meus caros amigos, aqui estamos todos nós. É um traço tão português. Tão nacional. Pensamos sempre que só acontece aos outros. A nossa descontração do dia a dia (tão boa, admito!) faz-nos acreditar que ataques terroristas? Só lá fora. Conflitos armados? Para lá do paralelo 20º. Vivemos tão pacificamente iludidos no nosso cantinho, que às vezes nos esquecemos que essa “paz” pode ser apenas passageira. Damos isto que temos como garantido. E isso leva-nos, a todos, a ser displicentes. Descuidados. Aumentamos o risco porque assumimos que cá é impossível isso acontecer. Criticamos as forças armadas, que deveriam ser estimadas, porque ignorantemente não compreendemos a sua necessidade e a sua importância fulcral. E está à vista o resultado. Só acontece aos outros até ao dia que nos acontece a nós. Sim. O nacional-porreirismo, a nossa maneira de ser, também é responsável. 

Dou por mim a pensar que, e nem acredito que vou escrever isto, espero que estas armas tenham como destino um país terceiro. Uma rebelião, ou mesmo grupos de crime organizado do leste europeu. Porque se tiverem como destino células terroristas os estragos serão inqualificáveis. 

O que aconteceu é surpreendente. É revoltante. É inadmissível

Um dia, se em algum atentado numa cidade europeia se descobrir que o armamento utilizado foi originário em Portugal, vamos todos olhar para trás e pensar “como foi possível”. 

Mas foi. 

E é bom que agora assumamos as nossas responsabilidades.

 
Todos nós. 

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