10 de Junho - Finalmente

Imaginem três cidadãos. Margarida, António e José. A Margarida, civil, imigrante num país estrangeiro, abriu as portas da sua casa e do seu prédio a vários estranhos durante os piores ataques terroristas daquela cidade onde vivia. O António, ex-militar, aquando do seu serviço pelo seu país viu-se encurralado numa emboscada. Aí, perseguiu um inimigo. Feriu-o, capturou-o e prestou-lhe de imediato os primeiros socorros, arriscando a sua própria vida. O José, Sargento no activo das Forças Armadas, demonstrou excepcional coragem durante o seu destacamento no Kosovo – ainda uma zona tensa e violenta – no início deste ano. Seria mais um período de meses longe de casa e da família, em missão pelo seu país.

Imaginem agora outros três compatriotas. São eles Valentim, Armando e Zeinal. O Valentim passou grande parte da sua vida envolvido na vida política nacional. Maioritariamente em autarquias foi diversas vezes indiciado em crimes de corrupção e gestão danosa. O Armando, igualmente fruto da classe política nacional, dividiu o seu tempo entre a actividade política e empresarial. Na política nutriu e alimentou relações suspeitas com o mundo privado. No privado administrou diversas empresas sem que, à partida, tivesse competência para tal. É arguido e acusado de corrupção em diversos processos em curso. Zeinal, antigo e promissor gestor, conseguiu estar ao leme da mais poderosa e maior empresa portuguesa. As suas decisões (que muitos viam como acertadas) equivaleram a um gigante iceberg. O navio foi ao fundo.

Muito separa os primeiros três cidadãos dos últimos três. Mas algo os une. Todos foram condecorados em cerimónias do dia 10 de Junho. O dia de Portugal. 

Eu – como espero que a maioria dos meus concidadãos – identifico-me mais com os primeiros três. A Margarida, o António e o José.

E chegamos a 2016. Finalmente, e pela primeira vez na história recente do nosso país, foram condecorados apenas cidadãos que demonstraram actos de bravura. Actos de excepcional coragem ou dedicação ao próximo. Militares ou civis. Ponto. Sem politiquices. Sem bajulice. Sem exageros. Foram apenas dez. Longe dos vinte, trinta ou quarenta de outros tempos.

A Margarida, o António e o José foram três desses condecorados. 

E é assim que deve ser.

Não me interpretem mal. Muitos cidadãos nacionais merecem ser agraciados. Condecorados e reconhecidos por importantes serviços a nível nacional. Mas existem outras formas, outras datas, outras cerimónias para o efeito.

No dia 10 de Junho devíamos celebrar a bravura e a coragem que alguns dos nosso compatriotas demonstraram. Civis ou militares. Aquela garra portuguesa que tanto caracterizou este povo durante séculos.

E finalmente assim o foi.

10junho

A mais alta condecoração inglesa chama-se Victoria Cross (VC). É o equivalente da Medalha de Honra do congresso norte-americano. E uma maneira simples de homenagear os seus detentores é que a partir do momento em que alguém (e são muito poucos) recebe a Victoria Cross, toda a correspondência, papelada ou documentação oficial para esse indivíduo deverá sempre possuir antes do seu nome a inscrição “VC”. Obrigatório por lei. Seja uma carta para pagar, seja uma alocução pública. Para que todos, desde o carteiro ao presidente da câmara, saibam que aquela pessoa, incógnita e simples, é detentora da mais alta condecoração de estado, ao serviço da pátria e da Rainha.

E por cá poderia ser igual.

Os grandes portugueses existem. Aqueles de quem nos devemos orgulhar. Aqueles que demonstram coragem, bravura e dedicação muito para além do normal e do dever, muitas vezes pondo em risco aquilo que de mais sagrado têm: a própria vida.

Esses portugueses são portugueses como a Margarida, o António e o José.  

Incomensuravelmente mais importantes, mais inspiradores e mais merecedores que os Valentim, Armando e Zeinal deste país.

Finalmente tivemos um 10 de Junho ao nível de Portugal.

Um 10 de Junho de que me orgulho.

Finalmente.  

www.merlin37.com/finalmente